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26.9.24

Crónicas de Londres #13

Em meados dos anos 1960, os gigantes do rock, Mick Jagger e Keith Richards, partilharam uma casa (não sei se na altura já estava dividida em múltiplos apartamentos) com o manager/produtor da banda, Andrew Oldham. Nessa época, por volta de 1964, os Stones eram ainda uma banda de covers de blues rock e faziam parte da constelação de grupos que povoavam a cena British Rhythm & Blues: The Yardbirds, Them, The Animals, The Pretty Things, The Zombies e Small Faces. Lançaram, nesse ano, dois discos: o primeiro, homónimo, em abril (gravado em janeiro e fevereiro), que incluía ‘Route 66’ e ‘I Just Want to Make Love to You’; e o segundo, intitulado ‘12x5’, em outubro (gravado entre fevereiro e setembro), que tinha ‘Time Is on My Side’, ‘It's All Over Now’ e ‘Susie Q’. As primeiras tentativas da dupla Jagger/Richards, ‘Good Times, Bad Times’, ‘Congratulations’ e ‘Grown Up Wrong’, apareceram neste álbum, mas ainda estavam muito longe de merecer o estatuto de lado A de um single e ainda mais longe de chegarem aos tops. Perante tal cenário, e dado o crescimento exponencial da experiência de autor protagonizada pelo pioneiro Dylan, o manager/produtor Andrew Oldham teve a brilhante ideia de os trancar na cozinha com a liberdade condicional de dois ou três singles originais com potencial para alcançar o top. A experiência (chamemos-lhe experiência, não sendo mito ou lenda) correu bem, e ‘(I Can't Get No) Satisfaction’ saiu em agosto de 1965 – um single de garage rock e proto-punk, já bem distante do estilo R&B dos primeiros anos. Logo depois, em outubro, saiu ‘Get Off of My Cloud’. A fórmula mágica da maior banda de rock de todos os tempos foi encontrada numa cozinha da minha rua, a Mapesbury Road. A tal casa fica mesmo aqui ao lado, a cerca de 50 metros, no número 33, a idade em que eu, muito provavelmente, morri para o rock. Verdade seja dita, nunca experimentei trancar-me na cozinha numa tentativa de ressurreição – talvez precisasse de um manager com ideias brilhantes para isso – mas creio que o mais certo seria começar a lavar pratos ou a amassar pão (o tal pão que o Tiago amassou).

Esta constatação, encontrada em blogs locais e páginas soltas da Wikipedia, faz-me refletir sobre como é viver aqui em Kilburn e como este cenário seria diferente nos anos 1960. Leva-me a uma investigação online inicial que pode lançar alguma luz sobre este vazio rockeiro de Kilburn. A verdade é que, durante todos estes anos aqui, nunca me cruzei com ninguém com vontade de tirar o pó às guitarras. A maior ironia foi ter-me mudado para Kilburn pouco tempo depois de o estúdio/local de ensaio dos The 99 Call, na Finchley Road, mesmo ao lado do Camden Arts Centre, ter deixado de o ser, porque, mais uma vez, um senhorio ambicioso resolveu “fazer obras”. E assim, a vibe de Londres foi-se perdendo: locais de ensaio que fecham, salas-cafés-pubs com música ao vivo que deixam de conseguir suportar os custos da competição com mais um bloco de apartamentos (o Luminaire, por exemplo, era um espaço interessante na Kilburn High Road). Muitos músicos, alguns que chegaram a ser parte do meu círculo de amigos por um bom tempo, tiveram de deixar Londres porque a vida estava demasiado cara ou, simplesmente, porque a expansão da cidade-universo continua a acelerar. E isto já acontecia antes do maldito Brexit e da pandemia.

Os The 99 Call, para quem não conhece, são descendentes dos Tram, uma banda slowcore que ouvi pela primeira vez numa compilação-tributo a Tim Buckley – Sing A Song For You: Tribute To Tim Buckley – que descobri na Biblioteca da Sereia no meu último ano em Coimbra. Tornei-me baixista dos The 99 Call no ano em que, ironicamente, morri para o rock, 2011, e fizemos alguns concertos: dois em Londres e dois fora, em festivais em Donostia (San Sebastián) e Barcelona. Bons tempos. Entretanto, um membro foi morar para os lados de Bristol, outro para Manchester, e as luzes apagaram-se lentamente até se extinguirem por completo quando o músico-mor teve de deixar a casa-estúdio-sala-de-ensaio onde vivia na Finchley Road. E eu não deixei de pensar: atravessei a cidade inúmeras vezes para ensaiar com os The 99 Call, sempre com entusiasmo, ansioso por mais ensaios e talvez novos projetos, improvisos, gravações. E agora que estou a 10 minutos de distância, pufff, no more, nada, finito, kaput! Londres é assim: uma distância filha-da-pura para conseguir enraizar amizades e manter uma rotina de encontros, ensaios e locais de ensaio – um mundo que, sem dúvida, já existiu, mas que já não existe mais. E assim, quando cheguei a Kilburn, dei aquele salto no vazio à la Yves Klein, apenas para aterrar (tal como ele) no afago de um colchão depois de mais um dia de trabalho. Durante estes anos, nunca encontrei ninguém com vontade de fazer alguma coisa, porque, na verdade, estas coisas não acontecem em cidades vastas e sem âncoras locais. Provavelmente cruzo-me todos os dias na rua com outros como eu, anónimos que também morreram para o rock e que não encontram um espaço (porque ele não existe) para um momento de criação coletiva – algo que ainda acredito que acontece em cidades pequenas, onde todos se conhecem, pelo menos de vista. Agora, imagine-se ir ao pub da esquina, noutros tempos, e encontrar o Mick Jagger, o Keith Richards, o Brian Eno, o Evan Parker... todos eles viveram por Kilburn e deixam-me a imaginar este cenário de outra forma. E há ainda aqueles que são menos conhecidos, aqueles cujo nome se foi apagando com o passar dos anos, personagens secundários numa imensidão de gente que, infelizmente, não chegaram aos holofotes maiores do rock e afins.

Se há 10 anos Kilburn ainda tinha uma boa sala onde se podiam ver concertos e conhecer malta ligada à música, e há 20 ou 30 anos era possível cruzar-se com um músico célebre no supermercado, há 50 anos toda esta zona entre Kilburn, West Hampstead, St. John’s Wood/Abbey Road e Finchley deveria ser um foco primordial da cena londrina. Em West Hampstead, havia o Klooks Kleek, um clube de jazz e rhythm 'n' blues no primeiro andar do Railroad Hotel (que ainda existe, mas agora apenas como pub), por onde passaram John Mayall, John Lee Hooker, Howlin' Wolf, Jimi Hendrix – não é nada de estranhar que Jagger e Richards andassem por perto, pois não? Alguns anos depois, já com o nome The Moonlight Club, o espaço abriu portas ao pós-punk dos Joy Division e dos The Birthday Party. No edifício ao lado, ficavam os famosos Decca Studios (agora o English National Opera), onde os Beatles fracassaram na audição de 1 de janeiro de 1962, ouvindo a famosa frase “não têm futuro no show business”. Por lá gravou muita gente conhecida: John Mayall's Bluesbreakers, The Moody Blues, The Zombies, David Bowie, Marc Bolan, Fleetwood Mac de Peter Green e, claro, Mick Jagger e Keith Richards (no notável primeiro EP de 1964 dos The Rolling Stones), ambos moradores da Mapesbury Road número 33, pseudo-chefes de cozinha e ocasionais músicos em liberdade condicional.

Hoje, tudo isso parece pertencer a um tempo distante. A vibrante cultura que outrora definia o bairro de Kilburn foi lentamente engolida pela expansão desenfreada da cidade, onde o espírito boémio deu lugar a uma atmosfera cada vez mais corporativa e impessoal. Locais como o Klooks Kleek, os Decca Studios e o Luminaire, antes fundamentais para a cena musical, agora vivem apenas na memória coletiva e, é preciso dizer, nos confins infinitos da internet. Mas há uma coisa importante nisso tudo: agora, sempre que passo pela porta do número 33, dou um pinote ao ritmo da guitarra de Richards, que eu juro, pela Santa Piursa e pelo Diabo de Galegos, ainda toca pela janela da cozinha. E eu sou novamente um Jagger de 20 anos:

When I'm driving in my car
And that man comes on the radio
And he's telling me more and more
About some useless information
Supposed to fire my imagination
I can't get no, oh no, no, no!
Hey, hey, hey! That's what I'll say!
I can't get no satisfaction!

2.9.24

Crónicas de Londres #12

Contra todas as tendências de moço bem-comportado, avesso ao festivaleiro tremor de cores garridas e danças frenéticas, numa alegria que sempre me pareceu trapaceira por apenas durar enquanto há festa, desci as ruas de bicicleta para ir espreitar, pela primeira vez em já muitos anos de vivência no estrangeiro londrino, o último dia do carnaval de Notting Hill. Até então, as experiências carnavalescas nunca haviam passado de páginas de jornal, tantas vezes de polícia, facadas incompreensíveis, ou então a ver uma carruagem de metro invadida e atolada por uma cambada de gente espampanante a caminho da festa em horas ainda diurnas, ou a regressar em figura decadente e esborratada em horas noturnas. Venha o diabo e escolha. De modo que, apesar de tudo isso e de uma cruz assente no evento, dei por mim a atravessar as barricadas de polícia na Harrow Road, para me deparar com um início de festa (pouca gente ainda) e uma tabuleta, entre muitas, a publicitar o uso de uma latrina, daquelas de festival, por três paus, e o direito a saltar a fila por mais dois paus. Ou seja, um alívio urinário rápido por cinco, talvez ao preço da bebida, mau para os aflitos. Só por aqui já dá para perceber as dimensões da coisa. Ao mesmo tempo que, dadas as hipotéticas dimensões dessa coisa em hora de ponta, não se percebe o preferir gastar uma nota com vergonha de um alívio no meio da rua. De certeza que ninguém levaria a mal.

Em dia de carnaval, quando todas as lojas da Portobello têm as montras tapadas com placas de madeira, cenário só visto em dias de motim e paranoia de pandemia, o negócio divide-se entre montar uma banca de jerk pork/chicken e pina coladas, ou abrir o corredor para a casa de banho e pagar a um porteiro para cobrar os tais três ou cinco paus. É loja sim, loja sim. Entre as lojas, há os sound systems, racks de colunas com mais de cinquenta anos, a bombar os mesmos graves do tempo em que o Bob Marley passeava por Londres e, entre um grande charro e outro mais pequeno, se lançava numa carreira internacional estonteante, seguramente digna do talento sideral do homem. Tirei uma foto a um autêntico mural de som da Gladdy Wax Sound System e, por momentos, li “war” em vez de “wax”, tal era a disposição gladiadora de sound systems pelas ruas, cada uma mais sísmica do que a outra. E se acham que um tremor de 5.3 na escala de Richter no meio do Atlântico tem impacto, não queiram usar óculos com menos de cinco dioptrias perto daquelas coisas. Estilhaço certo. E este tremor, aliado ao tremor de imaginar a rua ao rubro no ponto alto da festa, ou seja, por volta das seis da tarde, fez com que o meu habitual reconhecimento de território pós-férias ficasse por ali. Entrei na rota do canal e fiz um desvio por Little Venice, depois pelos estúdios de Maida Vale da BBC, numa prazenteira pedalada de domingo nas zonas limítrofes sónicas do carnaval. Quero dizer com isto que me orientei por decibéis no caminho para casa - a fugir da cacofonia!

O meu carnaval é antes - e mais! - a escultura do António Ramalho (AR) que eu trouxe na mala: um semblante espantado com víboras espetadas para fora da cabeça e mamas despidas, pontiagudas, a desafiar a gravidade, num corpo de escamas mitológicas: a Medusa. Fiquei hipnotizado por ela na pobre (diga-se) Feira de Artesanato de Barcelos. Pobre porque, enfim, é uma feira onde os portugueses vão só comer e ver. Só isto explica o preço de uma medusa de AR ao preço de três ou quatro mijas a saltar filas no carnaval de Notting Hill. Uma das víboras partiu-se durante a viagem (colei-a prontamente), e eu começo a desconfiar que foi antes uma tentativa de fuga para Portobello. Estou agora a olhar para a Medusa e a pensar nisso. Se eu fosse Medusa, ou víbora de uma Medusa, assim que me visse longe da feira de artesanato dos portugueses de barriga farta e palito na boca, a ponderar vinte paus na compra de um galo de Barcelos contemporâneo (percebem esta estética do galo contemporâneo, não percebem?) ou três copos de vinho verde branco com muitos sulfitos para digerir melhor a jantarada, iria certamente arriscar o coiro para me entranhar num carnaval que está mais ao nível do figurado do que todas as festas das Cruzes e de paróquia juntas do nosso querido mês de agosto.

Crónicas de Londres #11

Sou assinante ocasional da revista WIRE. Quando estou em maré de leituras rebuscadas sobre as tendências mais obscuras do mundo da música e quando navego pelas páginas de escrita densa sem me perder, faço questão de assinar a revista por um ano para ver como corre a assiduidade da leitura das sonoridades mais à margem. Porém, quando atravesso um período de dois ou três números em que leio só por ler, sem muitas vezes terminar o texto, tal é sinal de abandono, ou melhor, de deixar a assinatura expirar até ver, ou seja, até me sentir novamente disposto a dar continuidade à torre de revistas empilhadas no canto do quarto. Como não gosto de me livrar deste tipo de coisas, entro em modo "soft" de não aquisição de novos números. Por muito imbecil que isto soe, custa-me mais livrar-me de revistas velhas do que deixar de comprar novas. A opção de assinatura digital ainda não entrou nesta equação por enquanto. Seja como for, tenho de dizer o seguinte: a revista WIRE completa a trindade essencial da boa degustação da música mais à margem, da improvisada à experimental, da folk mais pura à eletrónica mais primordial, da música concreta às field recordings, e por aí. As outras duas são: o Café Oto, em Dalston, cuja última memória foi um soberbo concerto de Rafael Toral de apresentação do recente "Spectral Evolution" num domingo à tarde (comprei a última cópia em vinil a preço de membro e fiquei com mais um disco autografado - uma lista de histórias a merecer também uma crónica); e o programa de rádio "Late Junction" da BBC Radio 3, apresentado à vez por Verity Sharp e Jennifer Lucy Allan - poderia mencionar aqui também a rádio Resonance FM que, no cômputo geral, será certamente a versão rádio mais próxima do Café Oto e da revista WIRE, mas não sou um ouvinte assim tão assíduo. Mas recomendo caso as duas horas semanais de "Late Junction" não sejam suficientes para abrir os horizontes.

A minha última assinatura da WIRE teve como impulso uma edição especial com 20 páginas dedicadas aos The Fall (número 472) e uma capa de rabiscos amarelos em forma de Mark E. Smith num fundo vermelho. A recente edição com 19 páginas dedicadas ao mundo sonoro de David Lynch (finalmente uma edição dedicada!) era, à partida, suficiente alor para um novo mergulho, não fosse apenas versão digital, mas, desconfiado que este pode ser apenas um especial em 12, decidi conter-me (pelo menos para já enquanto não coloco outras leituras em dia) e, em vez da assinatura, fui à loja comprar a revista. Ao bater a uma hora, em dia de visitar o escritório em Kings Cross, quanto não fosse para aproveitar o ar condicionado em dia quente, atravessei o Granary Square, passei para o outro lado do canal, desci o Pancras Square e entrei na primeira loja de revistas da estação de St Pancras. Era um bom dia para comprar o almoço num take away qualquer e ficar ao sol como os sardões. Centenas de pessoas tiveram essa ideia, mas eu não. Não no dia em que havia decidido comprar a WIRE com o David Lynch e a Chrystabell na capa. Comprei a revista e, depois de um pequeno desvio para comprar café no Waitrose (não sei porque é que fui comprar café antes do almoço, só pode ter sido uma decisão inconsciente à sombra do célebre snack de café e tarte de cereja de Twin Peaks), rumei novamente ao escritório. Depois, folheei a revista à frente do prato durante os meus auto-definidos 15 minutos de almoço, cenário que o meu avô materno reprovaria com toda a certeza.

O meu interesse pela obra de David Lynch não se consubstancia apenas pela estética e direção cinematográfica. Existem pelo menos duas outras dimensões que explicam, passe a redundância, este inexplicável (ou será antes explicável?) interesse pela obra fílmica e, essencialmente, sónica de Lynch: o primeiro, mais sensorial/emotivo, tem que ver com emoções enraizadas de um genérico e imagens avulsas (apesar do medo, de vez em quando espreitava algumas sequências) da série Twin Peaks no início dos anos 1990; o segundo tem um pendor intelectualizado (talvez uma busca tardia de uma explicação para essa carga emotiva enraizada) em contexto académico, quando fiz um segundo desvio de percurso (o primeiro, o maior, tinha sido a fuga ao Direito) em jeito de fuga do mundo técnico dos estúdios e da música comercial para as entrelinhas do design sonoro no cinema e na arte abstrata. Depois de um ensaio sobre a influência da música concreta em "Tomorrow Never Knows" dos Beatles e outro sobre a tecnologia do looping, em 2009 decidi escrever sobre a série Twin Peaks. O título traduzido era algo como 'A Abstração da Pop Através da Mecânica do Filme', título demasiado pomposo para uma proposta que passava por uma explanação tríptica da musicalidade de Lynch (a saber: a dream pop, o design sonoro industrial e o fator-Badalamenti) e que deixava em aberto uma extensa propensão para a influência cinemática no mundo da música que ia de Amanda Palmer aos Stars of the Lid. O ensaio não teve seguimento e, por isso, nunca iria parar a revista alguma, mas um dia destes vou fazer uma revisão do texto original e publicá-lo algures.

A influência de Lynch é notória em passagens derradeiras dos Kafka. A mais óbvia e prevalente data da gravação mais esclarecida, última e única, precisamente no dia 30 de outubro de 2004 (já lá vão 20 anos!), no último concerto dos Kafka no auditório de S. Bento Menni em Barcelos. Chama-se "And Then We Shall Forget / Falling", faixa número doze de uma gravação em minidisc disponível no Bandcamp. Não sei se existe aqui a audácia de uma versão da célebre "Falling" porque tal seria um autêntico sacrilégio de todas as versões possíveis que os Kafka alguma vez poderiam fazer. Prefiro ouvir isto não como uma versão, mas antes como uma espécie de cameo. A primeira parte, inicialmente composta para uma sessão de poesia, antes de ter título, já possuía uma aura de inspiração no misterioso Syd Barrett. A primitiva versão até tinha alguns fragmentos de letra com alusões óbvias ao célebre outsider, fragmentos esses que se dispersaram com um excerto do filme de animação "Wind in the Willows". Não me recordo ao certo de onde veio a ideia na altura, mas é bem capaz de ter sido uma lógica transversal ao primeiro disco de Barrett com os Floyd, "The Piper at the Gates of Dawn", título do capítulo em destaque do livro de Kenneth Graham e do qual também surgiu o título póstumo "And Then We Shall Forget", também uma passagem do mesmo capítulo. Não sei exatamente onde ocorre a simbiose, mas há nesta embriaguez do sonho do "Wind in the Willows" qualquer coisa de Twin Peaks. Daí não ter sido de todo escusado o cameo de "Falling" na parte final desta inédita versão no S. Bento Menni, até porque os acordes e as tonalidades eram as mesmas.

O fantasma de Twin Peaks marcou também a fase mais misteriosa de Katzgraben, projeto que surge após a desintegração dos Kafka e que, de certa forma, registou a possível continuidade dos Kafka na sua vertente talvez mais cinematográfica. Katzgraben é descendente de Kafka no próprio nome. Foi o título dado a um interlúdio instrumental do EP "Her Only Nightgown", após uma sessão de cinema no TGV em Coimbra dedicada à obra de Bertolt Brecht. A peça principal era "A Mãe Coragem", mas foi o título Katzgraben que ficou. Não apenas por ser um título fortemente enigmático - qualquer coisa como "cemitério de gatos", nome de terra que fica algures na Áustria - mas também por ter sido uma sessão de cinema sem legendas, o que me deixou à beira do precipício do suicídio abstrato. Tal imensidão abstrata apenas poderia ter dado origem à criação de uma banda sonora para uma ideia de peça de teatro em formato filme. Ainda hoje não sei exatamente o que pensar destas coisas, apenas sei que todas elas fazem parte da mesma dimensão de Twin Peaks e toda a imensidão misteriosa que o define. Assim sendo, a tal "And Then We Shall Forget" faz uma última aparição numa matiné de Katzgraben na Union Chapel, em Islington, cujos ensaios de uma semana ficaram registados no EP "We Burn Daylight".

Penso nestas coisas todas quando abro a revista WIRE dedicada à obra de David Lynch. São textos essenciais sobre uma intemporalidade impossível de definir; da mesma forma que eu, passados estes anos todos, já não sei articular muitas das ideias que fermentavam em 2009 por serem, talvez, demasiado vagas, estes textos já surgem numa época de revisão de cenas passadas que, de certa forma, já não estão ao nível exigido para uma verdadeira imersão na obra de Lynch: um estado de devaneio, perdição, velocidade, ansiedade, pesadelo, sempre na contramão da realidade.

Crónicas de Londres #10

 O Johnson veio à superfície apregoar mais fanfarronices conservadoras, no habitual tom de bobo da corte que se normalizou num país que já não entende o humor dos Monty Python, e aparece hoje na capa dos jornais de boca aberta e com o seu já patenteado cabelo desgrenhado. Parece que não há espelho que lhe diga para o cortar rente, como eu quando vou ao barbeiro Salsa: "pente um dos lados e atrás e pente três em cima." Não falha, seja aqui no melhor barbeiro turco de Kilburn ou, quando de férias, no barbeiro de aldeia, o Vilaça de S. Miguel da Carreira. O Jim Morrison dizia que os seus piores momentos foram cortes de cabelo, mas o Johnson tem um cardápio de trapalhadas que vão muito além das revoltas capilares em dias de tumulto conservador. E eu estou para aqui a falar de cortes de cabelo quando se aproximam as eleições mais importantes dos últimos vinte anos. Parece que o país está prestes a mudar de direção, mas isto pode ter muito pouco impacto quando a Inglaterra ainda está ao lume no campeonato europeu de futebol. Mas eu até compreendo isso de não cortar o cabelo porque gosto muito pouco de ir ao barbeiro. Ter de tirar os óculos para cortar o cabelo deixa-me sempre à deriva. Fico a contar os minutos para sair dali, e quando o barbeiro vem com o espelho para ver se gosto da rapadela na nuca, parece que fico a ver pior quando coloco novamente os óculos. Digo sempre que está muito bem e desando. As razões que me levam ao barbeiro nesta idade são duas: uma condição de pele que me dá menos comichão quando tenho o cabelo curto; e o facto de ter menos cabelo a crescer (para não dizer mais a cair) em cima da cabeça. De resto, tenho saudades dos meus vinte e trintas, quando tinha muito mais cabelo e me dava ao luxo de o deixar crescer. Os meus piores erros na vida não passaram necessariamente por cortes de cabelo, mas andaram lá perto. E para rematar, no embalo das analogias, apenas sei que a política do Reino Unido precisa de um bom corte de cabelo, pente um dos lados e atrás e pente três em cima, de preferência.

As eleições estão a acontecer agora, as urnas prestes a encerrar, e eu já votei há alguns dias por correspondência. Sendo de esquerda e pouco dado a esquecimentos daquilo que tem sido o desgoverno nas mãos dos conservadores, não é muito difícil adivinhar onde o meu voto foi parar. Aliás, este é o meu primeiro voto em eleições legislativas britânicas e espero que sirva para mudar alguma coisa. Foi este o único grande direito, pelo menos o mais óbvio, que adquiri com a naturalização britânica, embora, bem lá no fundo, tenha sido mais uma reação a toda a instabilidade que se gerou no período pós-brexit e os constantes pregões políticos anti-emigração e anti-Europa. Eles não querem chamar as coisas pelos nomes, mas não é só na Itália, na França e em Portugal, onde os movimentos de extrema-direita andam a ganhar força, que se vê uma espécie de fascismo camuflado a infiltrar-se e a normalizar-se. Mas eu nem queria estar aqui a falar de política porque de política percebo pouco ou nada. E não é por ter direito ao voto que me sinto mais cidadão; era antes o não me sentir um cidadão completo por não ter voto num país onde vivo há já alguns anos. Não sei se isto faz sentido. Da mesma forma que parece não fazer sentido para algumas pessoas não apoiar a equipa de futebol do país onde se vive ou onde se nasce. Mas porquê? Esta coisa das pátrias, dos valores britânicos e dos valores lusitanos, de se destacar este ou aquele só porque é da nossa nacionalidade, ou da nossa religião, e que só por isso eu tenho de abençoar, não passam de uma desculpa para domesticar a carneirada e criar fundamentalismos bacocos. Tanto pode ganhar a França, a Alemanha, a Espanha ou Portugal, mas eu apenas celebro a mudança. O futebol só serve mesmo para comer tremoços.

O Fausto morreu e eu só penso no "Coça a Barriga". Lembro-me de ser pequeno e de o ouvir pela primeira vez nos megafones de um carro de campanha política do PCP que circulava por Barcelos. Desde essa altura que o Fausto se tornou a presença eterna do músico que ia rir muito, gozar mais, a rodopiar num carrossel de fantasmagorias de bandas plásticas, diabos de barro de Galegos e cabeçudos. Se quisermos, temos na fanfarra de bombos e adufes do "Coça a Barriga" a essência do nosso folclore de raízes mais profundas elevada à condição erudita de uma orquestra de ritmos. Posso ouvir o "Coça a Barriga" quando me apetece, mas ouvi-lo através de megafones de campanha cidade fora é outra. É inadmissível um país andar em campanha política e não haver um único automóvel com um altifalante a debitar pantominas, vitaminas e nicotinas pelas ruas. Quando subia a Kilburn High Road no dia em que o Fausto morreu, quando o Portugal-Eslovénia estava para começar, ia a pensar nele e no "Coça a Barriga", a tentar forçar uma alucinação sonora ou uma miragem acesa do que estou a escrever neste parágrafo, quando vi um grupo de homens a descer a avenida pelo meio da estrada. (Estranho escrever 'a descer a avenida pelo meio da estrada'.) Não eram muitos, mas faziam um barulho desgraçado a gritar e a bater em bombos. Fiquei apenas a perceber que estavam a celebrar alguma grande vitória de uma equipa de futebol, talvez árabe, não faço ideia. Houve ali dois ou três segundos em que eu pensei que estavam a cantar o "Coça a Barriga". Quis acreditar nisso, porque se há uma festa com bombos e muitas vozes, tem de haver nelas qualquer coisa de "Coça a Barriga", e nicotinas, pantominas e vitaminas. Infelizmente, era apenas uma claque de futebol, absolutamente alienada de outros campeonatos e de outros mundos. E se os portugueses fossem verdadeiramente patriotas, cantavam o "Coça a Barriga" em vez d'"A Portuguesa". Jogos de futebol há muitos, génios há poucos.


Crónicas de Londres #9

 Há já bastante tempo que eu não ligo puto ao futebol. Não sei se foi por ter emigrado ou se, pura e simplesmente, deixei de ter interesse em abdicar do meu tempo para ver um jogo de 90 minutos, mastigar o rescaldo do jogo numa mesa de café, discutir se foi penalti, se o Benfica jogou mal, se o árbitro estava comprado, se o mercado de transferências está em alta, se mais uma cerveja vem com mais um golo, ou se os quatro ou cinco jornais desportivos diários deveriam dar mais espaço a outras modalidades. A verdade é que a minha caderneta de cromos foi perdendo cor, a geração de ouro foi envelhecendo, e eu deixei de reconhecer a maioria dos jogadores. Com isso, veio o desinteresse absoluto pelo meu clube português e uma franca incapacidade de estabelecer uma nova ligação clubística em terras inglesas. Há aqui uma incapacidade óbvia de explicar esta espécie de depressão futeboleira e eu não sei se vale a pena tentar sequer explicá-la. Eu sempre achei estranhas aquelas pessoas que tinham um clube, mas não tinham qualquer interesse por futebol; fazia-me confusão. Mas agora que estou curado dessa teia emotiva inútil, sinto-me bem, alegre por não querer saber quem vai à frente no campeonato. Isto a nível de clubes, porque a nível de seleção nacional já é um pouco diferente: gosto de ver jogos entre nações e gosto de torcer por Portugal. Mas, da mesma forma que não consigo explicar o meu desinteresse por embates clubísticos, também não consigo explicar esta persistência por uma seleção nacional de jogadores, ainda mais quando esta coisa de países a jogar uns contra os outros em tempos de nacionalismos exacerbados me faz uma confusão tremenda.

A minha melhor explicação para isto tudo não passa tanto pelo meu gradual desinteresse com o passar dos anos, mas antes pela génese de ter começado a gostar da bola. Enquanto que a escolha clubística passa normalmente pela influência de um familiar, tornando-se uma pura escolha de camisola como quem escolhe uma cor ou um prato de comida favorito, a escolha de país não se coloca a uma criança que nasce num país e não conhece outro. Depois, tudo depende do envolvimento com o futebol: a jogar na rua, na escola, ou a ver jogos na televisão ou no estádio. O meu primeiro clube chamava-se Os Andorinhas e eu fui guarda-redes dos infantis em meados da década de 1980. Fui guarda-redes porque não era muito bom a jogar futebol com os pés e, como mais ninguém queria ser guarda-redes, fui eu. Não era mau guarda-redes, penso eu. Atirava-me sem medo e fazia algumas defesas. Mas tinha um problema: usava (e ainda uso) óculos. Quando jogava com eles, acontecia sempre de levar uma bolada ou uma braçada. Eram de material acrílico, não partiam, mas ficavam bastante danificados, o que se tornava um muito mau negócio, tendo em conta o preço, sempre amplificado pela graduação. Quando decidia jogar sem eles, só via a bola quando ela estava muito perto e, por muito que eu treinasse os reflexos e conseguisse perceber o jogo com uma visão desfocada, era impossível apanhar os chutos mais fortes. Era uma merda usar óculos. Aliás, ainda é uma merda usar óculos. O desenvolvimento da lente de contacto para míopes com lentes de fundo de garrafão veio desanuviar o dilema, mas ainda assim, ainda não sei, por exemplo, o que é dar um mergulho numa piscina sem estar com a sensação de estar a mergulhar num quadro do Turner.

Jogar futebol nos anos 1980 deixou algumas especiarias nesta coisa de gostar de futebol, mas o que realmente marcou esta infinita vontade de ver jogos de futebol entre nações em campeonatos do Mundo e da Europa foi uma coleção de caretas que saíam nas caricas de Coca-Cola aquando do México 86. Não foi preciso beber muita Coca-Cola para ter os cromos todos porque o meu tio trabalhava num café. Por isso, eu tinha todos: o Bento, o Carlos Manuel, o Futre, o Rui Águas, o Diamantino, o João Pinto, o Frederico, o Álvaro, todos, e sobretudo muitos repetidos do Morato (em todas as coleções há sempre um repetido-mor) que nunca saiu do banco durante todo o campeonato. Havia muitas coleções de cromos autocolantes, mas esta foi a melhor ideia de todas porque as nossas brincadeiras preferidas de rua, tirando jogar à bola e aos cromos, envolviam muitas caricas, berlindes e um proto-subbuteo. E assim, foi em 1986 que me tornei um acérrimo apreciador da seleção portuguesa de futebol, apesar de não ter memória alguma dos jogos desse campeonato. Apenas me lembro de o Carlos Manuel marcar um golo aos ingleses, pois claro, e de o Maradona marcar o famoso golo com a mão de Deus também aos ingleses, pois claro.

Não tenho nenhum atrito com os ingleses do futebol, até porque vi Portugal ganhar sempre em confrontos diretos: aquele jogo impróprio para cardíacos ingleses que ficou 3-2 para Portugal em 2000; os penálties de 2004 cujo principal protagonista foi um mediano guarda-redes sem luvas, e a outra dose de penáltis no Mundial de 2012 que ditou o trauma definitivo na equipa dos três leões. Isto é o suficiente para não ter dúvidas. Portugal é a minha equipa, Inglaterra é sempre o adversário. Não há volta a dar. Está no sangue. Ao ponto de nem sequer equacionar aquela coisa que muita gente diz: "se a minha pátria não ganhar, que ganhe a segunda." Não. Eu até me esforço. Até tento ver as coisas numa perspetiva mais racional - "se jogar melhor, merece" - e equacionar o peso do melhor campeonato que é, sem dúvida, o inglês. Mas não. Eu vou ver jogos de Inglaterra entre muitos ingleses no pub e quando eles marcam golo fico tipo Chuck Norris (não no sentido de começar à murraça, obviamente; mais no sentido de expressividade emotiva) e quando eles sofrem um golo há em mim aquele típico rasgo de antipatia que também tenho, apenas no futebol, sublinhe-se, em relação aos franceses, aos espanhóis e aos alemães, só porque são sempre os melhores. Mas os ingleses nem são assim tão "os melhores". Por norma, começam bem e acabam numa caricatura. A verdade é que já sou capaz de torcer (não contra Portugal, obviamente) pelo País de Gales, pela Escócia e pela Irlanda do Norte. Não sou inglês em coisa nenhuma no futebol, mas penso que, pelo menos, sou britânico por ter de partilhar exatamente uma rivalidade de equipas nacionais dentro do mesmo país. É estranho isto, não é? Um país de futebol que tem quatro países dentro.

(...)

Silêncio inglês no pub Beaten Docket. Apenas o som da televisão e a conversa de dois indianos numa mesa distante. Os adeptos estão desesperados com a falta de imaginação da equipa que não marca golos. Não marca, mas também não sofre; ainda assim, tudo isto é extremamente aborrecido para o apreciador inglês. Eu estou entre eles a degustar o final da segunda parte entre a Inglaterra e a Eslovénia. Um gajo ao meu lado desespera: "fock's sake Rice, what is that, fock's sake, run Kane, fock's sake, what is that Foden, fock's sake foul! fock's sake Saka." É um descontentamento profundo. E um cenário deprimente muito pouco digno da música "Theme from Sparta FC" dos The Fall, a única música sobre futebol que me ocorre, cuja dinâmica rockeira é tudo aquilo que nós queremos como banda sonora para um bom jogo de futebol. Aliás, qualquer instrumental dos The Fall com o Mark E. Smith a dizer os resultados da jornada por cima (coisa que ele chegou a fazer) seria uma boa banda sonora para um inteiro campeonato de futebol. É apenas isto que faz falta na extensa discografia dos The Fall. Até porque, tirando a banda sonora dos Mogwai para o filme-documentário do Zidane, o álbum dos Wedding Present dedicado ao George Best, e o samba do Sérgio Mendes para o Pelé, não me ocorre nenhum bom cruzamento entre música e futebol digno de mencionar aqui. Um empate sem golos.

(....)

Talvez regresse hoje ao mesmo pub para assistir ao jogo entre Portugal e a Geórgia. Não estando a Inglaterra em jogo, haverá certamente uma mesa vazia não muito longe da televisão cuja qualidade de imagem está ao nível da ITT que eu tinha em casa em finais de 1980s. Se a Geórgia marcar um golo, sei que vou ouvir celebrações. Não necessariamente de um georgiano ou georgiana, mas porque o pub está sempre cheio de imigrantes como eu a torcer pela derrota da equipa do Cristiano Ronaldo, tão só porque os portugueses são os favoritos e há sempre o tal rasgo de antipatia que eu partilho em relação às outras grandes equipas. Mas eu gosto de ver jogos no pub exatamente por causa disso e é talvez por isso que eu me dou ao trabalho de ver um jogo inteiro de futebol. Há também aqui uma sensação difícil de se explicar. Quando vejo por instantes a cobertura dos telejornais portugueses, vejo imagens em direto de gente numa queda-livre de emoções coletivas à frente de um ecrã gigante. E onde não existe um ecrã gigante, imagino ruas desertas durante o jogo, um país completamente parado, à espera de golos, e um eventual êxtase coletivo. E é com a ideia deste cenário que eu reflito sobre gostar de estar aqui, entre tanta gente diferente, diferentes culturas, diferentes clubes e, sobretudo, gente que não quer saber de futebol para nada.


Crónicas de Londres #8

Fomos a Paris. Três dias de chuva perfeitos para viajar de Eurostar e de metro, mas algo risíveis para caminhar ao longo das margens do Sena, subir a Torre Eiffel e visitar cemitérios. Foram muitos anos a hesitar (sim, foi a nossa primeira vez!), dada a nossa postura anti-cidades-demasiado-turísticas-com-sotaques-posh, mas lá fomos, sem grandes planos. Chegámos à Gare du Nord ao princípio da noite e rumámos ao primeiro Airbnb que nos apareceu no mapa: um modesto T1 antigo em Saint-Denis, para lá do Stade de France. Nada de especial a realçar no subúrbio, pelo menos que eu tivesse tempo de investigar, e só depois do regresso, ao ler mais algumas páginas da biografia de Mário Cesariny, reparei que estivemos bem perto da Rue Fontaine, supostamente da casa de André Breton que o poeta surrealista português visitou na década de 1940. Uma falha indesculpável. Eu, que tenho o hábito de procurar lugares (e os sons dos lugares) outrora habitados por gente ligada à música e à literatura em vez de visitar lugares turísticos, fico apenas a alguns metros de passar pela casa de André Breton, respirar fundo, observar o lugar durante alguns minutos e nesse curto espaço de tempo, imaginar um jovem Cesariny a bater à porta do Breton para este lhe iluminar a musa e incendiar o mundo português com um manifesto surrealista. Merde. Olhei melhor e percebi uma imprecisão da Wikipedia: a rua onde Breton morou não é Rue Fontaine em Saint-Denis, mas sim Rue Pierre Fontaine no Pigalle! Estivemos perto, mas não assim tão perto.

Ainda assim, em vez de procurar as rues pierre fontaines de Paris, dei por mim a fazer algo para o qual eu tenho pouca apetência: ser um turista. E lá estávamos-nos nós a subir a Torre Eiffel num dia de chuva: os primeiros dois pisos a pé, com a chuva a bater, e depois de elevador até ao topo. Não foi tanto estar lá em cima a observar a cidade que me trouxe um grande entusiasmo, mas sim o desafio de subir tudo aquilo, por entre tanto ferro alicerçado. E só tenho pena de não se poder subir tudo a pé — isso sim, seria uma aventura magnificente e um exercício no mínimo dramático. Lá em cima havia uma neblina que encobria as zonas mais distantes da cidade e muitos turistas, daqueles americanos que bebem champanhe e caviar8 para assinalar o momento. E eu, por momentos de loucura ou vertigem, pensei que ia ver Londres, o Big Ben, o Shard, o que revela logo a minha profunda vontade de voltar para casa logo no primeiro dia. Uma canção de Jane Birkin ecoa: "Home", composta por Neil Hannon dos Divine Comedy para o álbum de 2006, Fictions. “It’s time that you came home, it’s where the heart is” já ressoava enquanto subia as escadas do Sacré-Cœur, e eu não sei que cadeado me prendeu à música da inglesa de Marylebone, a mais sexy de todos os tempos, que viveu mais Paris do que Londres.

Vi o concerto de Jane Birkin no Barbican, no dia 9 de julho de 2022, num palco de luzes profundas, sombras e fantasmas de uma era distante. A abrir, um medley de Je T'aime Moi Non Plus e Jane B., seguido das canções de Melody Nelson. Não cantou "Home". A chanteuse já não dançava. Era uma presença física frágil, um fio de corpo parado. Mas, tal como outras musas — Marianne Faithfull, Nico —, emanava uma voz profunda e terrosa, longe do canto de pássaro fugidio dos anos 1960. Quando a rainha de Inglaterra morreu em setembro desse ano, cheguei à conclusão que havia em mim um traço monárquico. Porém, a rainha era outra. Escrevi num caderno: "A rainha, vistas as coisas numa perspetiva mais angular, é como uma pop star que nunca teve de aprender a cantar. Nasceu já famosa, sem ter de entoar um único olarilolela, mas esteve sempre lá, nas horas boas e nas horas más, e as pessoas gostam muito dela da mesma forma que eu gosto da Jane Birkin, que para mim é uma rainha elevada ao cubo. Quando ela morrer, vou ficar muito triste, vou ouvir todas as músicas, ver os filmes, as entrevistas, e os vídeos no YouTube, exatamente da mesma forma que muitas pessoas, milhares delas, incluindo Vivienne Westwood e Johnny Lydon, veem documentários e noticiários sobre a rainha, sobre a Diana, sobre o Carlitos e até sobre muitos outros reis e princesas menos conhecidos que existem por esse mundo fora." Jane Birkin morreu um ano depois, e mais um dia em Paris, e eu teria ido dar um passeio ao cemitério de Montparnasse.

Não fui ao cemitério de Montparnasse, mas fui ao Père Lachaise. Digamos que o adolescente que há em mim fez disso uma condição sine qua non para uma primeira visita a Paris. Aos catorze anos eu era devoto religioso praticante da religião rock psicadélica, e em particular da vertente do diabrete Morrison e apóstolos das portas da percepção, e não poderia deixar de visitar a campa mais célebre do cemitério. Apesar de me ter tornado seguidor antes do filme O Mito de uma Nova Geração do Oliver Stone, que de certa forma regenerou o legado dos Doors, fiquei sempre com aquela triste sequência final do filme na cabeça - Chopin, Proust, Wilde e Morrison - ao som do Albinoni's Adagio in G Minor. Ali, a sequência era outra, mais lenta e contemplativa do silêncio próprio de muitas campas antigas, mausoléus abandonados, palco de fantasmas de gente mais rica do que famosa, tendo em conta o tamanho e a opulência de alguns palácios de repouso eterno. A campa do Jim Morrison estava ladeada por um gradeamento e coberta de pequenos vasos com flores. Começou a chover e eu liguei o meu gravador para ter comigo um som de chuva no Pere Lachaise junto da campa do cantor maldito. Quatro minutos de chuva e ocasionais conversas baixas entre os visitantes. Poderia ser a Riders on the Storm. Reparei no nome desordenado, Douglas James Morrison em vez de James Douglas Morrison, e na inscrição ΚΑΤΑ ΤΟΝ ΔΑΙΜΟΝΑ ΕΑΥΤΟΥ e fui ver a tradução: "verdadeiro para com o seu próprio espírito" ou "de acordo com o seu próprio daemon.” O tal daemon da filosofia grega seria muito mais apropriado para descrever a ascensão do Jimbo após o filme do Oliver Stone. Para mim continuava a ser o tímido poeta do rock, ávido leitor de Rimbaud, Baudelaire e de William Blake, propenso a excessos dionisíacos.




Parou de chover e, no preciso momento em que seguíamos a margem Serge Gainsbourg do Sena, recebo mensagens inesperadas a dizer que o comboio de regresso fora cancelado. E foi nesse momento que imaginei Jim Morrison e Serge Gainsbourg juntos, dois corpos cambaleantes num palco imaginário, óculos escuros, cigarros acesos, um a queimar notas, outro a ameaçar com exibicionismos fálicos, ambos a rodopiar e a cantarolar a minha predileta Home em dueto e tom de gozo: "Another round of interviews" (Gainsbourg a carregar nos erres), "Another pointless party" (Morrison a imitar Birkin num falsete cómico), "I really should be getting home" (Gainsbourg a piscar o olho a Whitney Houston), "They say that's where the heart is" (Morrison a piscar o olho a Birkin).

Crónicas de Londres #7

MAP PIECE
Draw a map to get lost.
1964 spring


Na primeira semana do cartaz da exposição da Yoko Ono na Tate Modern, colado numa parede da Kilburn High Road, obedeço à primeira instrução e começo a desenhar mentalmente um mapa para me perder. O meu desenho é feito de sons. Imagino um livro de crónicas sonoras sobre este lugar, uma pesquisa sobre a vida destes edifícios, os estúdios e as salas que já não existem, a casa a 100 metros da minha que foi habitada pelo Mick Jagger e pelo Keith Richards nos anos 1960. Tenho uma lista de potenciais textos sobre Kilburn e é este o mapa no qual eu me posso perder. Arranco uma folha da parede e, com este simples gesto, faço um pedestre parar para contemplar o cartaz. Não me parece que as pessoas que passam reparam que o cartaz tem um bloco de páginas, cada uma com uma instrução do livro da autora, Grapefruit. A exposição intitulada Music of the Mind começa aqui, na rua. E para aqueles que pensam o que pensam sobre a Yoko Ono, lembrem-se que muito antes das Oblique Strategies do Brian Eno e das experiências de música concreta dos Beatles, ela já fazia música e brincava com ela. Não sejam patetas.


CITY PIECE
Step in all the puddles in the city.
1963 autumn


Os estúdios de Abbey Road não ficam muito longe de Kilburn. Cerca de duas milhas da minha porta. Doze minutos de bicicleta, quarenta minutos a pé. Mas eu acho que é menos do que isso. Já passei por lá algumas vezes só em passeio e nunca percebi muito bem o fascínio de tirar uma fotografia na célebre passadeira. Entrei lá duas vezes. Não me lembro da primeira, mas penso que foi para um quiz anual que lá fazem na altura do Natal. Já foi há tanto tempo que eu nem sequer me recordo se foi realmente lá ou num edifício próximo. Da segunda vez (talvez a primeira, realmente) fui ver tudo: os estúdios de masterização, os estúdios de gravação, tudo, incluindo a pequena sala de teto baixo que serviu para os Beatles gravarem vozes naturalmente reverberadas. A visita aconteceu num dia de chuva e decerto que entrei em todas as poças de água da cidade. Existe ali algo mágico. Mas existe sobretudo uma penumbra de museu vivo que dá vontade de visitar regularmente.


PAINTING FOR THE WIND
Cut a hole in a bag filled with seeds
of any kind and place the bag where there is wind.
1961 summer


Na semana seguinte, todas as páginas dos dois cadernos do cartaz haviam sido arrancadas. Terá alguém pensado excessivamente na obra, como se esta tivesse a mesma dimensão das obras em exposição na Tate Modern? Ou terá sido o puro fascínio de arrancar as páginas, ato próprio das pessoas que gostam de arrancar cartazes? E houve ainda alguém que teve o descaramento de colar um poster do desaparecimento de um gato preto: “MISSING BLACK CAT: Help us find our pet Pinky”. Há aqui qualquer coisa muito dadá num poster de um gato preto chamado Pinky colado num cartaz da Yoko Ono. Parece ter um traço dela. A bruxa. A (ainda por cima) mulher (ainda por cima) japonesa (ainda por cima) imigrante responsável pelo fim dos Beatles! Puros condimentos de feitiços que a deixam no crucifixo da balada do Lennon. Não se deixem enganar! O Lennon dos anos 1960 não era o mesmo dos anos 1970. O primeiro era um puto a viver o princípio da fama, casado em segredo para dar alento aos gritinhos das fãs, sem tempo de pai para o filho Julian, enquanto que o segundo decidiu cumprir um hiato de 5 anos dos palcos para ser o pai presente do filho Sean. Penso que isto diz tudo sobre o Lennon e sobre o fim dos Beatles. Mas claro, é muito mais fácil a vilificação da Yoko Ono: a mulher, japonesa, estrangeira, aquela que gritava em vez de cantar, aquela que se tornou artista famosa com o Lennon. Infelizmente, a misoginia e o racismo, ainda que subtil, impede muita boa gente de querer ver a grande artista que é a Yoko Ono, que já fazia muitas performances com o John Cage e o David Tudor, muito antes de o McCartney e o Lennon saberem quem eles eram. Só por isso já devem os Beatles muito à Yoko Ono. Ela a eles não lhes deve nada.