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2.9.24

Crónicas de Londres #7

MAP PIECE
Draw a map to get lost.
1964 spring


Na primeira semana do cartaz da exposição da Yoko Ono na Tate Modern, colado numa parede da Kilburn High Road, obedeço à primeira instrução e começo a desenhar mentalmente um mapa para me perder. O meu desenho é feito de sons. Imagino um livro de crónicas sonoras sobre este lugar, uma pesquisa sobre a vida destes edifícios, os estúdios e as salas que já não existem, a casa a 100 metros da minha que foi habitada pelo Mick Jagger e pelo Keith Richards nos anos 1960. Tenho uma lista de potenciais textos sobre Kilburn e é este o mapa no qual eu me posso perder. Arranco uma folha da parede e, com este simples gesto, faço um pedestre parar para contemplar o cartaz. Não me parece que as pessoas que passam reparam que o cartaz tem um bloco de páginas, cada uma com uma instrução do livro da autora, Grapefruit. A exposição intitulada Music of the Mind começa aqui, na rua. E para aqueles que pensam o que pensam sobre a Yoko Ono, lembrem-se que muito antes das Oblique Strategies do Brian Eno e das experiências de música concreta dos Beatles, ela já fazia música e brincava com ela. Não sejam patetas.


CITY PIECE
Step in all the puddles in the city.
1963 autumn


Os estúdios de Abbey Road não ficam muito longe de Kilburn. Cerca de duas milhas da minha porta. Doze minutos de bicicleta, quarenta minutos a pé. Mas eu acho que é menos do que isso. Já passei por lá algumas vezes só em passeio e nunca percebi muito bem o fascínio de tirar uma fotografia na célebre passadeira. Entrei lá duas vezes. Não me lembro da primeira, mas penso que foi para um quiz anual que lá fazem na altura do Natal. Já foi há tanto tempo que eu nem sequer me recordo se foi realmente lá ou num edifício próximo. Da segunda vez (talvez a primeira, realmente) fui ver tudo: os estúdios de masterização, os estúdios de gravação, tudo, incluindo a pequena sala de teto baixo que serviu para os Beatles gravarem vozes naturalmente reverberadas. A visita aconteceu num dia de chuva e decerto que entrei em todas as poças de água da cidade. Existe ali algo mágico. Mas existe sobretudo uma penumbra de museu vivo que dá vontade de visitar regularmente.


PAINTING FOR THE WIND
Cut a hole in a bag filled with seeds
of any kind and place the bag where there is wind.
1961 summer


Na semana seguinte, todas as páginas dos dois cadernos do cartaz haviam sido arrancadas. Terá alguém pensado excessivamente na obra, como se esta tivesse a mesma dimensão das obras em exposição na Tate Modern? Ou terá sido o puro fascínio de arrancar as páginas, ato próprio das pessoas que gostam de arrancar cartazes? E houve ainda alguém que teve o descaramento de colar um poster do desaparecimento de um gato preto: “MISSING BLACK CAT: Help us find our pet Pinky”. Há aqui qualquer coisa muito dadá num poster de um gato preto chamado Pinky colado num cartaz da Yoko Ono. Parece ter um traço dela. A bruxa. A (ainda por cima) mulher (ainda por cima) japonesa (ainda por cima) imigrante responsável pelo fim dos Beatles! Puros condimentos de feitiços que a deixam no crucifixo da balada do Lennon. Não se deixem enganar! O Lennon dos anos 1960 não era o mesmo dos anos 1970. O primeiro era um puto a viver o princípio da fama, casado em segredo para dar alento aos gritinhos das fãs, sem tempo de pai para o filho Julian, enquanto que o segundo decidiu cumprir um hiato de 5 anos dos palcos para ser o pai presente do filho Sean. Penso que isto diz tudo sobre o Lennon e sobre o fim dos Beatles. Mas claro, é muito mais fácil a vilificação da Yoko Ono: a mulher, japonesa, estrangeira, aquela que gritava em vez de cantar, aquela que se tornou artista famosa com o Lennon. Infelizmente, a misoginia e o racismo, ainda que subtil, impede muita boa gente de querer ver a grande artista que é a Yoko Ono, que já fazia muitas performances com o John Cage e o David Tudor, muito antes de o McCartney e o Lennon saberem quem eles eram. Só por isso já devem os Beatles muito à Yoko Ono. Ela a eles não lhes deve nada.

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