Há muitos anos, numa paragem de autocarro em Leyton, conheci uma idosa irlandesa que me perguntou de onde eu era. Assim que lhe respondi, ela acrescentou que os nossos povos eram muito próximos e que existia uma espécie de relação de irmandade profunda entre eles, uma relação que, na verdade, não existe entre os ingleses e os irlandeses da República da Irlanda. Apontou dois elementos fundamentais. O primeiro era a religião. Ambos os países foram profundamente moldados pelo catolicismo, para o bem e para o mal. O segundo era o mar. Perante a pobreza e a fome, a única alternativa destes povos foi o mar. Partiram. E nesse eterno olhar para o horizonte marítimo ficou a melancolia e aquilo que os portugueses gostam muito de dizer que só a eles lhes pertence: a saudade. Ainda fiquei na expectativa de a ver tirar um bolinho de bacalhau de dentro de um tupperware para me oferecer, mas isso não aconteceu. O autocarro chegou e eu, neste breve encontro, fiquei a perceber um pouco melhor o que é isto de ser do norte.
Os anos passaram e as circunstâncias laborais ditaram a nossa mudança para o outro lado norte da cidade, mais precisamente, para Kilburn, a freguesia onde reside a maior comunidade irlandesa de Londres. No entanto, o avanço da densidade populacional ao longo dos anos foi certamente diluindo as marcas acentuadas na paisagem urbana. E neste cenário de poucos traços salientes, apenas temos uma certeza: é no pub da classe trabalhadora que encontramos os sotaques mais puros. Há uns poucos pubs irlandeses aqui na Kilburn High Road, o Sir Collin Campbell, por exemplo, mas não é raro ver muitas pints de Guinness nas mesas do pub The Beaten Docket, o pub que mais visitamos por ser o mais próximo e, muito provavelmente, o mais barato. É um Wetherspoons. Sempre povoado de imigrantes, gente local e muitos reformados. Alguns juntam-se na mesma mesa a conversar e a beber, mas muitos são estátuas solitárias, cada um na sua mesa, com um copo cheio quando o outro ainda vai a meio. Não lêem jornais, nem olham para telemóveis. Observam. Meditam de cabeça levantada. Levantam e pousam o copo numa lentidão de sábio, parecendo gravitar numa solidão demasiado digna para ser interrompida por uma conversa superficial. Não são apenas homens nesta pose de tartaruga. Há também reformadas de muitos anos a beber o seu copo, e é nestas alturas que me lembro da disparidade entre os meus dois países: enquanto as mulheres portuguesas trabalhavam arduamente no campo ou a servir para não passarem fome, estas viviam a aventura boémia da Londres dos anos 1960, na onda dos Stones e dos Beatles, no Soho das revoluções todas. E isto transparece no gesto e postura destas mulheres, quando bebem e quando fumam; ao passo que as portuguesas, mesmo depois de 50 anos de liberdade, nunca recuperaram do tabu, da misoginia, da sociedade patriarcal, do machismo que absorve todo o espaço público da vida de taverna e fora dela.
Há uns tempos, entre muitos discos de tempos perdidos numa caixa da Oxfam de Kilburn, encontrei um In Session dos Dubliners e comprei-o por 50p. É uma edição barata de uma distribuidora local, a Hallmark Records, que, em 1970, data do lançamento, ficava um pouco mais a norte da Kilburn High Road, na Edgware Road, Cricklewood. Tem uma dedicatória na contracapa: “To Frank with all my love, Annie”, que me faz refletir sobre o tempo dos objetos e o significado que eles poderiam ter há mais de 50 anos. Em 1970, mais do que um presente de uma Annie para um Frank, eram objetos de poesia, de tradições, de sedimentação de cultura e, em muitos casos, um objeto de afirmação política. Numa passagem do texto assinado pelo editor Nathan Joseph lê-se a seguinte frase: “Quando juntos, os Dubliners são o suficiente para aquecer o coração de qualquer homem irlandês e para assustar as autoridades britânicas de imigração.”
Não eram tempos fáceis. No ano da revolução portuguesa, no dia 8 de junho, mais de 3000 habitantes de Kilburn fizeram o cortejo fúnebre de um republicano irlandês e membro do IRA chamado Michael Gaughan, que morrera de “complicações” depois de 64 dias em greve de fome. Na altura, combatia-se a greve de fome com a ingestão forçada de alimentos. Era uma coisa hedionda. Cerca de 6 a 8 guardas prendiam o prisioneiro e arrastavam-no para uma cama. Depois, esticavam-lhe o pescoço por cima da armação de metal, enfiavam-lhe um objeto entre os dentes por onde passava um tubo por onde entrava a comida. Gaughan foi forçado a comer dessa forma 17 vezes durante a sua greve de fome, sendo a última na véspera do dia em que morreu. Tinha 24 anos. A causa de morte nunca foi clarificada. As autoridades britânicas disseram que ele morrera de pneumonia; a família afirmou que ele morreu com comida alojada num pulmão perfurado pelo tubo. Independentemente da real causa, o governo britânico decidiu acabar com a política de alimentação forçada, assegurando a todos os restantes prisioneiros em greve de fome que iriam ser repatriados para prisões irlandesas.
Em dezembro de 1975, um dos pubs mais populares entre a comunidade irlandesa de Kilburn, o Biddy Mulligan, foi alvo de um atentado bombista perpetrado pelo UDA (Associação de Defesa do Ulster), supostamente o único atentado lealista do Ulster que ocorreu em Londres durante o conflito irlandês. Estavam 90 pessoas no pub, mas houve poucos feridos. Talvez estivessem todos dispersos, cada um na sua mesa, com uma Guinness de copo cheio quando o outro ainda ia a meio, a meditar em pose de estátua. Ou então, não. Talvez estivessem todos a bater copos e a cantar juntos os eternos versos da canção ancestral The Wild Rover, na versão dos Dubliners, porque a primeira ressurreição apenas viria a ocorrer passados cerca de 10 anos num B-side do single dos Pogues, Sally Maclennane, logo após o lançamento de Red Roses for Me em 1984.
A segunda ressurreição de The Wild Rover desta nova era aconteceu no disco Livelong Day dos Lankum. É uma versão que transforma o ímpeto original, tornando-a mais lenta, mais obsessiva e muito mais ancorada na elipse drónica (acabei de inventar esta palavra, um estilo clássico greco-romano aliado ao premente conceito de drone) e, seguramente, muito mais assombrosa. É aqui que a típica drinking song (como traduzir isto para português? Canção de bebida? Soa muito mal...) atinge o pico dramático da ambivalência irlandesa entre o caos boémio e a desgraça. Nisto os Lankum são peritos nas escolhas: temas profundos e negros onde não faltam as murder ballads (mais uma tradução que soa mal: baladas do raisparta que só beneficiam o anglicismo), as relações amorosas que não acabam bem, a beleza das palavras entrecortadas por ruído, o contraste da placidez da balada com momentos de puro caos.
Fui vê-los pela segunda vez. Desta vez, no Hackney Empire. Quatro aspetos fundamentais a assinalar: o primeiro, tem a ver com o facto de terem tocado o último disco, False Lankum, na íntegra. Ao vivo, as canções possuem outra dinâmica, mas a ideia de um disco impuro, algo fragmentado e disperso, é intocável. Existe um contraste imenso entre a lindíssima balada Newcastle e a épica The Turn, entre a melodia mais pura e o drone de ruído branco, entre os momentos de improviso e os de tradição. Mas não é exatamente esta a essência da cultura irlandesa, a tal melancolia do mar e o tal imaginário, por vezes tenebroso, das manifestações religiosas que, verdade seja dita, absorveram imensos mitos pagãos? Sobre isto, agora de repente, apetece-me dizer que, ao passo que encontro a melancolia desta música na saudade e no fado (e também na música de intervenção do Zeca), já não consigo encontrar correspondência portuguesa no lado mais dionisíaco da música irlandesa. É muito provável que se tenha perdido durante as longas décadas de ditadura - de facto, onde é que estão as drinking songs portuguesas? Na Mula da Cooperativa?
O segundo aspeto a salientar é o tema que encerra o disco False Lankum: The Turn. Ao vivo, a intensidade sónica eleva os Lankum ao Olimpo dos Swans e dos GYBE! Não são de todo escusadas as referências na imprensa. Existe maquinaria eletrónica a dar intensidade bélica à simplicidade orgânica dos instrumentos acústicos, mas quando estes instrumentos são sanfonas, violinos, gaitas-de-foles e harmónios, a dimensão é outra. Quando tocado de uma certa forma nas notas mais graves e com tremolo, o harmónio é de uma intensidade brutal a gerar frequências de funeral - é uma espécie de mini-caixão de sons.
Sobre o terceiro aspeto já disse quase tudo. The Wild Rover foi a primeira música do encore e o antídoto perfeito após o êxtase sónico e luminoso de mais de 12 minutos de The Turn. E digo luminoso porque as luzes de palco estavam em ácidos e o técnico teve a ideia brilhante de pôr a piscar as luzes dos candeeiros antigos da sala de teatro. Ficou o cenário de um filme de David Lynch: as luzes em curto-circuito, o ruído delas e uma grande cortina vermelha a fechar o palco. Depois disto tudo, só existiam duas hipóteses: acabar o concerto ali mesmo ou tocar The Wild Rover. Tudo adquiriu um peso maior: as palavras, a voz singular de Radie Peat em perfeita simbiose com as harmonias das vozes masculinas e as batidas graves e cardíacas na parte final da música.
O quarto aspeto tem a ver com a música que habitualmente encerra os concertos dos Lankum: Bear Creek. É uma música de profundas raízes celtas, com desenhos melódicos e instrumentação que seguramente a tornam identificável por qualquer um como um tema de música tradicional irlandesa. Mas não é exatamente sobre isto que eu me queria debruçar, mas sobre o facto de uma banda de vozes, de canções, de baladas, terminar um concerto com uma música instrumental. E se há algo que eu aprecio na dinâmica de um bom concerto, é ver uma banda que, depois de muita canção e poesia, conversa entre as músicas e simples entrega, decide acabar com um tema instrumental, daqueles que parecem não ter princípio nem fim. E é nestes momentos únicos que eu me reencontro com a mulher irlandesa na paragem de autocarro de Leyton.
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