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30.8.24

Crónicas de Londres #5

 Não sei se é a ternura existencial dos 40s, a persistência da memória dos meus dias distantes em Londres ou a vontade viciante de estar sempre a inventar algo que me levou a iniciar um projeto de recolha de memórias da música pós-punk feita em Barcelos nos anos 1990. A minha primeira abordagem, mais contida, obriga-me a um ritual de escrita de um "romance" para o qual nunca tive disciplina, apesar de ser um ativista da cena, ainda que semi-ausente há quase 20 anos. A segunda, iniciada no início de 2024, consiste num reavivamento dialético, através de conversas, com muitos dos intervenientes com quem tenho proximidade. Optei por começar com os TAUF, por terem sido o epicentro, e com os Kafka, por razões óbvias, e não demorei muito tempo a perceber que este exercício, um tanto inocente, me obriga a um estudo mais aprofundado da matéria. Em duas vertentes: a minha entrada precoce em cena em 1993 com a primeira formação de Dilema e, posteriormente, Servos da Gleba > Hipnotik Mujiks > Kafka; e o que existia antes de 1993, com o mapa-cor-de-rock desenhado pela primeira onda pós-punk barcelense dos Translúcidos, Ribanceira, Subúrbios e Fucklore. Aviso já: é uma viagem quixotesca. Não necessariamente para conseguir reunir uma boa compilação de conversas, mas sim para encontrar tempo (essa coisa maldita) para transcrever as conversas a um ritmo que eu considere aceitável. Estou em queda-livre. E não há inteligência artificial que me valha.

O projecto chama-se 'Conversas Algures entre Kilburn e Barcelos', numa óbvia alusão subvertida ao "algures entre Braga e Nova Iorque" do António Variações e os textos/transcrições podem ser lidos no meu recém criado espaço do Substack com o mesmo nome (o link estará disponível em breve). A partir daqui, adentro neste viver em Kilburn e nesta condição de ser um português suave a habitar na aspereza urbana da grande cidade: sou português, natural de Barcelos, vivi durante 5 anos em Coimbra, sou londrino há quase 20 anos, residente em Kilburn depois de uns primeiros bons anos do outro lado norte da cidade. Esta é a minha identidade, construída a partir de lugares, de 'deslugares' e de ausência. Sou emigrante num lado e imigrante no outro. Gosto de escrever em português. Tudo isto para dizer que, mais do que uma boa vontade de deixar a memória dos anos 1990 em estado efeverescente e fecundo (nada de nostalgias, insisto), existe em mim uma necessidade absoluta de manter vivas as palavras entre nós, entre amigos, do passado, presente e futuro. É um território movediço, onde procuro um pouco de cronologia, para me atirar logo de seguida a outra conversa, algures entre Kilburn e uma cidade de Barcelos a viajar no tempo. Viver em Kilburn em 2024 é, acima de tudo, um esforço contínuo para não ser dominado pela distância. E posso dizer que uma simples conversa é o lume para muitos dias de rotina entre casa, trabalho e o trabalho remoto. O árduo processo de transcrição é, em si mesmo, um reavivar dessa magnífica sensação de presença, e é por isso que quero ter as vozes de todos guardadas cá dentro. Já guardei algumas, mas ainda faltam muitas mais.

A gutta-percha, ou a simples ideia de gutta-percha (é uma palavra bonita, não é?), surgiu pela primeira vez no meu imaginário ao assistir a um filme qualquer na RTP 2. Era o vestígio de um crime, uma substância encontrada por detetives num cenário de conspiração e agentes secretos. Só mais tarde, bem mais tarde, já como estrangeiro, fui pesquisar sobre a planta da borracha e o seu uso na ciência e na literatura. Mais interessante do que um livro intitulado “Gutta Percha Willie: the Working Genius" de George MacDonald, é o facto de esse material especial da borracha ter sido utilizado nos primeiros cabos telegráficos transatlânticos por ser resiliente e um bom isolante elétrico. Fiquei siderado ao imaginar estes cabos gigantes a atravessar um oceano, adquirindo dimensões de universo, uma espécie de fantasia romântica que une pessoas separadas pela distância. As propriedades da gutta-percha foram cruciais para o sucesso desses cabos, tornando-os resistentes a supostos peixes com dentes e outros desafios do mar profundo. Esta ideia de gutta-percha gerou muitas conversas entre Londres e Berlim, uma primeira tentativa de netlabel no Bandcamp, e mais recentemente uma troca de meditações sónicas com o Ricardo P.. As plataformas e as ideias variam, mas o princípio cardíaco é sempre o mesmo: um cabo telegráfico a atravessar um oceano, transportando palavras, sons, música e sonhos. E agora, mais uma vez, é a gutta-percha que serve de fio de prumo a esta vontade de quebrar silêncios e regenerar memórias e histórias.


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