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5.5.24

Crónicas de Londres #4

A Kilburn High Road é a típica avenida londrina de muito trânsito e pouco turismo. Estende-se a norte de Maida Vale até Cricklewood, bifurcando em paragens de gente-mais-bem-na-vida em Queens Park, do lado esquerdo, e de West Hampstead, do lado direito. É uma avenida onde acontece tudo e não acontece nada. Explico: é de uma riqueza multicultural assinalável, repleta de lojas de classe trabalhadora imigrante, mas onde não existem pontos de encontro cultural, salvo talvez o teatro Kiln. Há um ou outro pub onde para a juventude de guitarra ao ombro, mas desde que o Luminaire fechou, nunca mais se viu substância musical de nível. É uma avenida rica em gente e ruído (sirenes a toda a hora), mas pobre em fundamento urbano.

Isto faz com que a Oxfam local seja uma pérola de artigos em segunda mão a bons preços. Esta semana encontrei uma mão cheia de CDs a 50p cada: as American Recordings de Johnny Cash, Grateful Dead, Tinariwen, Them, Rolling Stones, e o Astralwerks de Van Morrison. Há uns tempos equacionei o despacho de quase todos os meus CDs para uma loja de caridade da zona, mas ultimamente dei por mim a gostar de ouvir CDs novamente. O leitor de CDs do meu micro hi-fi deixou de funcionar, mas encontrei um aparelho portátil da Sony com leitor de CDs, cassete e rádio pela módica quantia de 20 libras numa loja Cash Converters da mesma avenida. Foi um momento engraçado. Quando perguntei ao empregado da loja se o deck de cassetes funcionava, ele respondeu que já não via uma cassete há mais de 20 anos. Arrisquei e ganhei a aposta. E à custa desse acaso, fui ouvir cassetes que já não ouvia há 20 anos (ao contrário do empregado, eu via-as, apenas não as ouvia), sendo uma delas de um ensaio de Intermission que me trouxe memórias profundas.

Dizia eu que comecei a interessar-me mais por CDs e porquê? Duas razões: a primeira tem a ver com o facto de a produção e venda de CDs estar em declínio e existem sérias probabilidades de daqui a uma década ou duas voltarem a ser objeto de revivalismo, na mesma senda do vinil; a segunda tem a ver com os preços (50p!) e com o gozo que me dá procurar pérolas no meio de tantos monos. Na semana passada, encontrei na Scope de West Hampstead, por uma libra e meia (eis a diferença de preços entre West Hampstead e Kilburn), um digipak em bom estado do álbum "A Short Album About Love" dos The Divine Comedy (edição original da Setanta) e uma compilação dos The Fall da qual eu nunca tinha ouvido falar, "Oxymoron". Quando se encontram discos destes no meio de discos do Barry White e do Neil Sedaka, a primeira coisa que me passa pela cabeça é: "tenho de os tirar daqui, não podem ficar nesta caixa de música que ninguém quer".

Mas há outras considerações neste tipo de passatempo. Quando penso, "vai ser mais um CD que eu apenas vou ouvir uma vez e metê-lo na caixa debaixo da cama porque não tenho espaço para tantos", lembro-me que estas compras são pequenas contribuições para as boas causas da Oxfam, da Scope, da Cancer Research, da PDSA, etc. Ou seja, mesmo que daqui a uns tempos eu chegue à conclusão de que já não os quero, ou não tenho mais espaço para eles, encho um saco e doo-os de volta. Haverá alguém que os vai comprar e alimentar o ciclo. Aliás, de certa forma, as lojas de caridade funcionam como autênticas bibliotecas de contribuições generosas, e como eu não sou muito de dar esmola ao pedinte para a dose, encontro nisto a minha contribuição para uma boa estruturação da benevolência e do lucro simbólico: todos os bons discos que eu compro na Oxfam de Kilburn por 50p acabam por ser doados mais tarde à Oxfam de West Hampstead onde eles são, por norma, vendidos pelo triplo.

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