A música fez-me de esquerda. A música e um olho, o direito, muito mais cegueta do que o outro. Tão cegueta que a lente já não acompanha tanta dioptria. Limita-se a uma periferia distorcida e desfocada e, com naturalidade, toda a minha visão é de esquerda. Porém, o meu olho direito continua vivo, quanto não seja para me mostrar o que vê. Apesar de tudo, ou de nada, não o quero perder.
Dizia eu que a música me fez de esquerda porque, essencialmente, andei sempre do outro lado, aquele do olho mais aberto. Aos 6 anos, ao ver o Variações partilhar um palco com o Marco Paulo, percebi que não se poderia ter dois amores. Aos 10, era o puto numa aula de educação visual a insistir ouvir uma cassete do álbum Animals dos Pink Floyd, quando todos os meus colegas queriam ouvir Michael Jackson e Madona. E o que é que isto de não se ser muito pop tem a ver com esquerda e liberdade? Não sei. Digam-me vocês.
Foi só por volta dos 12 ou 13 anos que comecei a descobrir as canções de protesto portuguesas. Descobri as canções do José Afonso, do Sérgio Godinho, do José Mário Branco e do Fausto. Algumas já conhecia, mas por aqui redescobria-as no contexto que lhes era próprio e na aprendizagem, ainda que rarefeita, da história da revolução. Na ausência de uma consciência política plena no meio familiar, salvo a consciência de uma classe proletária que, infelizmente, era mais dada ao dever do que aos direitos, eram as canções que me ensinavam os valores de abril. Como mais ninguém ouvia música em casa, não é de todo estranho que eu apenas tivesse ouvido o FMI do José Mário Branco pela primeira vez nas noites longas do Café da Ponte dos meus vinte anos. Como foi possível? Não sei. Apenas sei que há muita coisa mais apagada nos dias de hoje, um esquecimento, um vazio, uma falta de raízes das novas gerações que, ao contrário da minha, não cresceram num Portugal de revolução ainda acesa.
Em Londres não há 25 de abril. Não é feriado, fair enough. Não se aprende sobre a revolução nas escolas, não passa nas televisões, não se lê nos jornais e duvido até que tomar um café no Beiras de Willesden Green neste dia tenha um melhor sabor a liberdade. Mas o 25 de abril entra em nossa casa pela RTP Play, no telejornal da RTP2, num documentário sobre a Natália Correia e, sobretudo, numa série de programas de três minutos para crianças chamado 25 Curiosidades Sobre o 25 de Abril. Cabe-nos a nós, pais de uma geração ainda próxima da mudança, cultivar a memória para que nada se perca. Por muito que isto seja distante, há que continuar a falar, a descobrir, a ouvir, porque a revolução continua viva e é cada vez mais isto: este esforço constante de educar, de impregnar valores, de não deixar adormecer a revolução, porque os tempos são outros e os inimigos raramente são tão objectificados numa pessoa só, e o fantoche do primeiro-ministro inglês, ao arrepio do direito internacional, continua a insistir em deportações para o Rwanda.
Eu não quero saber se os putos de hoje têm a capacidade de atenção de um periquito. Cá por casa vêm-se programas em português sobre o 25 de abril, ouve-se a Grândola, Vila Morena, contam-se as histórias do Carlos Paredes e do do Charlie Haden e, sem censura de palavrões (ai que as crianças são tão sensíveis nos dias de hoje), ouve-se pela primeira vez, com muita atenção, o FMI do José Mário Branco. É certo que não dá para uma criança de 10 anos perceber tudo - quem percebe tudo? - mas alguma coisa fica e estou cada vez mais convicto que esta é a grande revolução dos nossos tempos: ouvir uma canção de 20 minutos do José Mário de fio a pavio, com uma criança, e como uma criança à descoberta, e no fim, conversar sobre isso. Alguma coisa fica.
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