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21.4.24

Crónicas de Londres #2

Tirei-lhe o plástico e o autocolante vermelho a dizer PROMOTION, mas estou a guardar o reencontro para mais logo: aquela peculiar hora do dia em que as luzes de cima se apagam e há um pouco de silêncio: um candeeiro apenas ligado, a luminosidade fosca das luzes da vizinhança a atravessarem o cortinado, uma sirene ou outra na distância citadina da Kilburn High Road, um regougo de raposa a ecoar nas traseiras do nosso quarteirão; o ranger da madeira do andar de cima nos passos de rotina "lavar-os-dentes-chichi-cama". É um disco duplo com uma capa negra entrecortada por onde se desenha uma geometria de cortinado vermelho. É também esta a cor dos dois discos de vinil (nota: "vinis" é palavra inexistente aqui, apesar do vulgar uso entre muita boa gente), mais precisamente, um vermelho-sangue com efeito mármore, o que diz muito sobre a música e o filme. Sobre ele omito o óbvio e assinalo apenas quatro momentos sonoros fundamentais: Sycamore Trees, A Real Indication, The Pink Room e Questions in a World of Blue. E acrescento ainda que escrevi sobre ele um pequeno ensaio há cerca de 15 anos (algo que tenho de rever um dia destes) focado no design sonoro e, em particular, numa cena em que os personagens estão numa discoteca e som intenso de Pink Room, num gesto raro no cinema, abafa os diálogos. Já chega de mistério para os desatentos: o filme chama-se Twin Peaks: Fire Walk With Me.

Comprei o disco hoje, na Rough Trade de Portobello, para assinalar mais um Record Store Day que quase quase passou pela calada na agenda pós-semana-santa-de-férias. Desci as ruas de bicicleta. Por muito que sejam apenas quinze minutos sempre a descer (entenda-se este descer num contexto londrino, ou seja, ligeiramente a descer), num velocípede clássico, sem eletricidade, a distância na grande cidade mantém-se ilusória porque fica sempre a sensação de se estar a atravessar diferentes dimensões: a multicultural Kilburn, a chique Queens Park, a dub-vibe Maida Hill e a turística Portobello. Meia dúzia de curvas e está-se numa Talbot Road cheia de gente, alguma nas janelas do prédio, outra em cima de telhados, outra sentada em cabines de bicicletas. Por momentos, fico com a sensação de que, para mim, neste dia, este é o cenário mais próximo de um concerto dos Beatles num telhado da Savile Road. Não porque a bonita voz da Celeste a tocar à porta da loja (não no famoso jardim dela) seja alguma vez historicamente comparável, mas sim porque existe qualquer coisa magnífica nisto de subir telhados e ficar à janela para conseguir ver o artista sem palco. Cenário idêntico deveria estar a acontecer na Berwick Street no Soho e na Rough Trade de Brick Lane.

Depois da Celeste veio uma banda de Cardiff chamada Buzzard Buzzard Buzzard (Buzzard três vezes só para ocupar espaço): um rock cheio de âncoras nos anos 1990, mas com truques de nova geração a desenhar uma mescla esquina - rock de meia-dúzia de lads de lata de cerveja na mão e sacos de discos ao ombro. A Celeste tinha muita mais gente. Fico a pensar neste recente fenómeno de os adolescentes ansiosos por discos da Taylor Swift andarem a tomar o lugar das compras dos quarentões e cinquentões que cresceram com o vinil. São estes que eu vejo à minha volta. São estes que compram discos às resmas. E são estes que, muito provavelmente, os ouvem.

É no aborrecimento deste cenário de rock que me vêm muitas vezes à cabeça coisas aparentemente sem nada a ver. Às vezes é um som de guitarra ou um gesto que dispara flashes de outros concertos que eu vi há mais de vinte anos. Qualquer coisa indefinível naquela energia de palco sem palco a dar curto-circuito nos neurónios mais apagados. E de que me lembro eu? De um lick de guitarra elétrica do guitarrista dos Zita Swoon, o Tom Pintens, no palco RUM da Queima das Fitas de Coimbra de 1998. Tenho um episódio sobre esse encontro: no final desse concerto, fui ter com dois deles junto ao palco, quando estavam a dar fotógrafos. Não me lembro da conversa e nem sei se ela existiu realmente, mas fui levado pela onda e acabei por pedir um autógrafo (o meu primeiro pedido de sempre - não existem muitos, verdade seja dita) no único papel que eu tinha no bolso, um recente freepass amarelo de Kafka no Rockastrus 1998. Encontrei-o no outro dia e em dois cliques à procura de música fiquei a saber que o Tom Pintens morreu em 2023.

Entrei na Rough Trade. Imaginei lá dentro toda a gente enquanto inspecionava os discos: The Raincoats, The Fall, Cabaret Voltaire, Young Marble Giants, The Pop Group, Wire, Throbbing Gristle, o Geoff Travis atrás do balcão, e até o Kurt Cobain à procura da Ana da Silva. Foi nesta espécie de Black Lodge da catedral do pós-punk londrino que encontrei o Fire Walk With Me e esqueci os Buzzard Buzzard Buzzard, a Celeste, o Tom Pintens, os Zita Swoon, a Taylor Swift e todo o Record Store Day. Agora é a hora, a tal do silêncio e das luzes de cima apagadas: you take me for a walk... under the sycamore trees... and I'll see you... and you'll see me.

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