Regressámos a Londres no sábado num voo da TAP para Gatwick. A companhia aérea não é uma preferência e, salvo alguns voos pontuais, e este foi um deles, o jogo pelos ares é quase sempre pela Ryanair a partir de Stansted. Porque é quase sempre mais barato, mais prático, oferece mais voos, outros horários, e a TAP raramente se apresenta concorrente. Os melhores voos da TAP aconteceram há meia dúzia de anos quando fizeram uma promoção a partir do aeroporto de Londres. Os preços eram bons, a distância para o aeroporto era perfeita e como na altura ainda ofereciam snacks (nada especial, apenas uma sanduíche pequena e um café) parecia estar aberto um caso de estudo para viagens recorrentes. Durou pouco. Uma ida e uma volta.
A TAP já não é o que era, mas também já nada é o que era. Nos primeiros anos de low cost o normal era possível: duas malas sem preços excedentes e sem controlo de peso, uma guitarra na mão sem ter de pagar nenhum extra (agora é preciso marcar um lugar para um instrumento de música), uma acesa liberdade de transportar farnéis culturais portugueses (lembro-me de ver senhoras com pratos de aletria, mexidos e rabanadas), e preços que agora são de uma brutal impossibilidade. Agora, exceto os bilhetes, tudo é económico: o espaço, os snacks, o peso permitido, até a TAP! Ainda me lembro de fazer as malas e de ter de as encher com coisas, roupa, CDs, merdas que nos ajudavam a estar fora durante longas temporadas, para que a mala não se tornasse uma máquina a torcer roupa aos trambolhões no porão do avião. Para ficar tudo bem acamadinho, como tão bem dizem e fazem os portugueses.
Agora as malas têm de ser pequenas: uma mochila que tem de caber debaixo do banco do avião e, por um preço extra, uma mala de cabine até 10 quilos para aquilo que tem de ser: alguma roupa, livros, portátil, e outras merdas que nunca são precisas. Mas com o passar dos anos os nossos hábitos foram mudando. Já não se ouvem CDs, já não se levam chocolates e rebuçados para os putos, já não há souvenirs que mereçam gramas e centímetros quadrados, já não se leva roupa porque já há que chegue no outro lado e, quando se está de férias, ninguém quer saber disso para nada. Agora enchem-se as malas com tecnologia: um portátil de trabalho, outro pessoal, um telemóvel de trabalho, outro pessoal, e um saco de cabos para carregar tudo, pilhas e outras bugigangas eletrónicas, um mini-sintetizador, uma placa de som para o caso de haver vontade de gravar coisas, um gravador portátil de bolso, outro gravador também portátil mas menos de bolso do que o outro, merdas, só merdas que acabam por ficar na mala até ao regresso.
O ideal era ter uma coisa de cada em cada casa, mas este viver não é ubíquo, mas sim um viver no éter, nas nuvens, entre uma ilha e uma peninsula, algures ali pelo Golfo de Biscaia, sem coordenadas certas.
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