Fomos a Paris. Três dias de chuva perfeitos para viajar de Eurostar e de metro, mas algo risíveis para caminhar ao longo das margens do Sena, subir a Torre Eiffel e visitar cemitérios. Foram muitos anos a hesitar (sim, foi a nossa primeira vez!), dada a nossa postura anti-cidades-demasiado-turísticas-com-sotaques-posh, mas lá fomos, sem grandes planos. Chegámos à Gare du Nord ao princípio da noite e rumámos ao primeiro Airbnb que nos apareceu no mapa: um modesto T1 antigo em Saint-Denis, para lá do Stade de France. Nada de especial a realçar no subúrbio, pelo menos que eu tivesse tempo de investigar, e só depois do regresso, ao ler mais algumas páginas da biografia de Mário Cesariny, reparei que estivemos bem perto da Rue Fontaine, supostamente da casa de André Breton que o poeta surrealista português visitou na década de 1940. Uma falha indesculpável. Eu, que tenho o hábito de procurar lugares (e os sons dos lugares) outrora habitados por gente ligada à música e à literatura em vez de visitar lugares turísticos, fico apenas a alguns metros de passar pela casa de André Breton, respirar fundo, observar o lugar durante alguns minutos e nesse curto espaço de tempo, imaginar um jovem Cesariny a bater à porta do Breton para este lhe iluminar a musa e incendiar o mundo português com um manifesto surrealista. Merde. Olhei melhor e percebi uma imprecisão da Wikipedia: a rua onde Breton morou não é Rue Fontaine em Saint-Denis, mas sim Rue Pierre Fontaine no Pigalle! Estivemos perto, mas não assim tão perto.
Ainda assim, em vez de procurar as rues pierre fontaines de Paris, dei por mim a fazer algo para o qual eu tenho pouca apetência: ser um turista. E lá estávamos-nos nós a subir a Torre Eiffel num dia de chuva: os primeiros dois pisos a pé, com a chuva a bater, e depois de elevador até ao topo. Não foi tanto estar lá em cima a observar a cidade que me trouxe um grande entusiasmo, mas sim o desafio de subir tudo aquilo, por entre tanto ferro alicerçado. E só tenho pena de não se poder subir tudo a pé — isso sim, seria uma aventura magnificente e um exercício no mínimo dramático. Lá em cima havia uma neblina que encobria as zonas mais distantes da cidade e muitos turistas, daqueles americanos que bebem champanhe e caviar8 para assinalar o momento. E eu, por momentos de loucura ou vertigem, pensei que ia ver Londres, o Big Ben, o Shard, o que revela logo a minha profunda vontade de voltar para casa logo no primeiro dia. Uma canção de Jane Birkin ecoa: "Home", composta por Neil Hannon dos Divine Comedy para o álbum de 2006, Fictions. “It’s time that you came home, it’s where the heart is” já ressoava enquanto subia as escadas do Sacré-Cœur, e eu não sei que cadeado me prendeu à música da inglesa de Marylebone, a mais sexy de todos os tempos, que viveu mais Paris do que Londres.
Vi o concerto de Jane Birkin no Barbican, no dia 9 de julho de 2022, num palco de luzes profundas, sombras e fantasmas de uma era distante. A abrir, um medley de Je T'aime Moi Non Plus e Jane B., seguido das canções de Melody Nelson. Não cantou "Home". A chanteuse já não dançava. Era uma presença física frágil, um fio de corpo parado. Mas, tal como outras musas — Marianne Faithfull, Nico —, emanava uma voz profunda e terrosa, longe do canto de pássaro fugidio dos anos 1960. Quando a rainha de Inglaterra morreu em setembro desse ano, cheguei à conclusão que havia em mim um traço monárquico. Porém, a rainha era outra. Escrevi num caderno: "A rainha, vistas as coisas numa perspetiva mais angular, é como uma pop star que nunca teve de aprender a cantar. Nasceu já famosa, sem ter de entoar um único olarilolela, mas esteve sempre lá, nas horas boas e nas horas más, e as pessoas gostam muito dela da mesma forma que eu gosto da Jane Birkin, que para mim é uma rainha elevada ao cubo. Quando ela morrer, vou ficar muito triste, vou ouvir todas as músicas, ver os filmes, as entrevistas, e os vídeos no YouTube, exatamente da mesma forma que muitas pessoas, milhares delas, incluindo Vivienne Westwood e Johnny Lydon, veem documentários e noticiários sobre a rainha, sobre a Diana, sobre o Carlitos e até sobre muitos outros reis e princesas menos conhecidos que existem por esse mundo fora." Jane Birkin morreu um ano depois, e mais um dia em Paris, e eu teria ido dar um passeio ao cemitério de Montparnasse.
Não fui ao cemitério de Montparnasse, mas fui ao Père Lachaise. Digamos que o adolescente que há em mim fez disso uma condição sine qua non para uma primeira visita a Paris. Aos catorze anos eu era devoto religioso praticante da religião rock psicadélica, e em particular da vertente do diabrete Morrison e apóstolos das portas da percepção, e não poderia deixar de visitar a campa mais célebre do cemitério. Apesar de me ter tornado seguidor antes do filme O Mito de uma Nova Geração do Oliver Stone, que de certa forma regenerou o legado dos Doors, fiquei sempre com aquela triste sequência final do filme na cabeça - Chopin, Proust, Wilde e Morrison - ao som do Albinoni's Adagio in G Minor. Ali, a sequência era outra, mais lenta e contemplativa do silêncio próprio de muitas campas antigas, mausoléus abandonados, palco de fantasmas de gente mais rica do que famosa, tendo em conta o tamanho e a opulência de alguns palácios de repouso eterno. A campa do Jim Morrison estava ladeada por um gradeamento e coberta de pequenos vasos com flores. Começou a chover e eu liguei o meu gravador para ter comigo um som de chuva no Pere Lachaise junto da campa do cantor maldito. Quatro minutos de chuva e ocasionais conversas baixas entre os visitantes. Poderia ser a Riders on the Storm. Reparei no nome desordenado, Douglas James Morrison em vez de James Douglas Morrison, e na inscrição ΚΑΤΑ ΤΟΝ ΔΑΙΜΟΝΑ ΕΑΥΤΟΥ e fui ver a tradução: "verdadeiro para com o seu próprio espírito" ou "de acordo com o seu próprio daemon.” O tal daemon da filosofia grega seria muito mais apropriado para descrever a ascensão do Jimbo após o filme do Oliver Stone. Para mim continuava a ser o tímido poeta do rock, ávido leitor de Rimbaud, Baudelaire e de William Blake, propenso a excessos dionisíacos.
Parou de chover e, no preciso momento em que seguíamos a margem Serge Gainsbourg do Sena, recebo mensagens inesperadas a dizer que o comboio de regresso fora cancelado. E foi nesse momento que imaginei Jim Morrison e Serge Gainsbourg juntos, dois corpos cambaleantes num palco imaginário, óculos escuros, cigarros acesos, um a queimar notas, outro a ameaçar com exibicionismos fálicos, ambos a rodopiar e a cantarolar a minha predileta Home em dueto e tom de gozo: "Another round of interviews" (Gainsbourg a carregar nos erres), "Another pointless party" (Morrison a imitar Birkin num falsete cómico), "I really should be getting home" (Gainsbourg a piscar o olho a Whitney Houston), "They say that's where the heart is" (Morrison a piscar o olho a Birkin).
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