Há já bastante tempo que eu não ligo puto ao futebol. Não sei se foi por ter emigrado ou se, pura e simplesmente, deixei de ter interesse em abdicar do meu tempo para ver um jogo de 90 minutos, mastigar o rescaldo do jogo numa mesa de café, discutir se foi penalti, se o Benfica jogou mal, se o árbitro estava comprado, se o mercado de transferências está em alta, se mais uma cerveja vem com mais um golo, ou se os quatro ou cinco jornais desportivos diários deveriam dar mais espaço a outras modalidades. A verdade é que a minha caderneta de cromos foi perdendo cor, a geração de ouro foi envelhecendo, e eu deixei de reconhecer a maioria dos jogadores. Com isso, veio o desinteresse absoluto pelo meu clube português e uma franca incapacidade de estabelecer uma nova ligação clubística em terras inglesas. Há aqui uma incapacidade óbvia de explicar esta espécie de depressão futeboleira e eu não sei se vale a pena tentar sequer explicá-la. Eu sempre achei estranhas aquelas pessoas que tinham um clube, mas não tinham qualquer interesse por futebol; fazia-me confusão. Mas agora que estou curado dessa teia emotiva inútil, sinto-me bem, alegre por não querer saber quem vai à frente no campeonato. Isto a nível de clubes, porque a nível de seleção nacional já é um pouco diferente: gosto de ver jogos entre nações e gosto de torcer por Portugal. Mas, da mesma forma que não consigo explicar o meu desinteresse por embates clubísticos, também não consigo explicar esta persistência por uma seleção nacional de jogadores, ainda mais quando esta coisa de países a jogar uns contra os outros em tempos de nacionalismos exacerbados me faz uma confusão tremenda.
A minha melhor explicação para isto tudo não passa tanto pelo meu gradual desinteresse com o passar dos anos, mas antes pela génese de ter começado a gostar da bola. Enquanto que a escolha clubística passa normalmente pela influência de um familiar, tornando-se uma pura escolha de camisola como quem escolhe uma cor ou um prato de comida favorito, a escolha de país não se coloca a uma criança que nasce num país e não conhece outro. Depois, tudo depende do envolvimento com o futebol: a jogar na rua, na escola, ou a ver jogos na televisão ou no estádio. O meu primeiro clube chamava-se Os Andorinhas e eu fui guarda-redes dos infantis em meados da década de 1980. Fui guarda-redes porque não era muito bom a jogar futebol com os pés e, como mais ninguém queria ser guarda-redes, fui eu. Não era mau guarda-redes, penso eu. Atirava-me sem medo e fazia algumas defesas. Mas tinha um problema: usava (e ainda uso) óculos. Quando jogava com eles, acontecia sempre de levar uma bolada ou uma braçada. Eram de material acrílico, não partiam, mas ficavam bastante danificados, o que se tornava um muito mau negócio, tendo em conta o preço, sempre amplificado pela graduação. Quando decidia jogar sem eles, só via a bola quando ela estava muito perto e, por muito que eu treinasse os reflexos e conseguisse perceber o jogo com uma visão desfocada, era impossível apanhar os chutos mais fortes. Era uma merda usar óculos. Aliás, ainda é uma merda usar óculos. O desenvolvimento da lente de contacto para míopes com lentes de fundo de garrafão veio desanuviar o dilema, mas ainda assim, ainda não sei, por exemplo, o que é dar um mergulho numa piscina sem estar com a sensação de estar a mergulhar num quadro do Turner.
Jogar futebol nos anos 1980 deixou algumas especiarias nesta coisa de gostar de futebol, mas o que realmente marcou esta infinita vontade de ver jogos de futebol entre nações em campeonatos do Mundo e da Europa foi uma coleção de caretas que saíam nas caricas de Coca-Cola aquando do México 86. Não foi preciso beber muita Coca-Cola para ter os cromos todos porque o meu tio trabalhava num café. Por isso, eu tinha todos: o Bento, o Carlos Manuel, o Futre, o Rui Águas, o Diamantino, o João Pinto, o Frederico, o Álvaro, todos, e sobretudo muitos repetidos do Morato (em todas as coleções há sempre um repetido-mor) que nunca saiu do banco durante todo o campeonato. Havia muitas coleções de cromos autocolantes, mas esta foi a melhor ideia de todas porque as nossas brincadeiras preferidas de rua, tirando jogar à bola e aos cromos, envolviam muitas caricas, berlindes e um proto-subbuteo. E assim, foi em 1986 que me tornei um acérrimo apreciador da seleção portuguesa de futebol, apesar de não ter memória alguma dos jogos desse campeonato. Apenas me lembro de o Carlos Manuel marcar um golo aos ingleses, pois claro, e de o Maradona marcar o famoso golo com a mão de Deus também aos ingleses, pois claro.
Não tenho nenhum atrito com os ingleses do futebol, até porque vi Portugal ganhar sempre em confrontos diretos: aquele jogo impróprio para cardíacos ingleses que ficou 3-2 para Portugal em 2000; os penálties de 2004 cujo principal protagonista foi um mediano guarda-redes sem luvas, e a outra dose de penáltis no Mundial de 2012 que ditou o trauma definitivo na equipa dos três leões. Isto é o suficiente para não ter dúvidas. Portugal é a minha equipa, Inglaterra é sempre o adversário. Não há volta a dar. Está no sangue. Ao ponto de nem sequer equacionar aquela coisa que muita gente diz: "se a minha pátria não ganhar, que ganhe a segunda." Não. Eu até me esforço. Até tento ver as coisas numa perspetiva mais racional - "se jogar melhor, merece" - e equacionar o peso do melhor campeonato que é, sem dúvida, o inglês. Mas não. Eu vou ver jogos de Inglaterra entre muitos ingleses no pub e quando eles marcam golo fico tipo Chuck Norris (não no sentido de começar à murraça, obviamente; mais no sentido de expressividade emotiva) e quando eles sofrem um golo há em mim aquele típico rasgo de antipatia que também tenho, apenas no futebol, sublinhe-se, em relação aos franceses, aos espanhóis e aos alemães, só porque são sempre os melhores. Mas os ingleses nem são assim tão "os melhores". Por norma, começam bem e acabam numa caricatura. A verdade é que já sou capaz de torcer (não contra Portugal, obviamente) pelo País de Gales, pela Escócia e pela Irlanda do Norte. Não sou inglês em coisa nenhuma no futebol, mas penso que, pelo menos, sou britânico por ter de partilhar exatamente uma rivalidade de equipas nacionais dentro do mesmo país. É estranho isto, não é? Um país de futebol que tem quatro países dentro.
(...)
Silêncio inglês no pub Beaten Docket. Apenas o som da televisão e a conversa de dois indianos numa mesa distante. Os adeptos estão desesperados com a falta de imaginação da equipa que não marca golos. Não marca, mas também não sofre; ainda assim, tudo isto é extremamente aborrecido para o apreciador inglês. Eu estou entre eles a degustar o final da segunda parte entre a Inglaterra e a Eslovénia. Um gajo ao meu lado desespera: "fock's sake Rice, what is that, fock's sake, run Kane, fock's sake, what is that Foden, fock's sake foul! fock's sake Saka." É um descontentamento profundo. E um cenário deprimente muito pouco digno da música "Theme from Sparta FC" dos The Fall, a única música sobre futebol que me ocorre, cuja dinâmica rockeira é tudo aquilo que nós queremos como banda sonora para um bom jogo de futebol. Aliás, qualquer instrumental dos The Fall com o Mark E. Smith a dizer os resultados da jornada por cima (coisa que ele chegou a fazer) seria uma boa banda sonora para um inteiro campeonato de futebol. É apenas isto que faz falta na extensa discografia dos The Fall. Até porque, tirando a banda sonora dos Mogwai para o filme-documentário do Zidane, o álbum dos Wedding Present dedicado ao George Best, e o samba do Sérgio Mendes para o Pelé, não me ocorre nenhum bom cruzamento entre música e futebol digno de mencionar aqui. Um empate sem golos.
(....)
Talvez regresse hoje ao mesmo pub para assistir ao jogo entre Portugal e a Geórgia. Não estando a Inglaterra em jogo, haverá certamente uma mesa vazia não muito longe da televisão cuja qualidade de imagem está ao nível da ITT que eu tinha em casa em finais de 1980s. Se a Geórgia marcar um golo, sei que vou ouvir celebrações. Não necessariamente de um georgiano ou georgiana, mas porque o pub está sempre cheio de imigrantes como eu a torcer pela derrota da equipa do Cristiano Ronaldo, tão só porque os portugueses são os favoritos e há sempre o tal rasgo de antipatia que eu partilho em relação às outras grandes equipas. Mas eu gosto de ver jogos no pub exatamente por causa disso e é talvez por isso que eu me dou ao trabalho de ver um jogo inteiro de futebol. Há também aqui uma sensação difícil de se explicar. Quando vejo por instantes a cobertura dos telejornais portugueses, vejo imagens em direto de gente numa queda-livre de emoções coletivas à frente de um ecrã gigante. E onde não existe um ecrã gigante, imagino ruas desertas durante o jogo, um país completamente parado, à espera de golos, e um eventual êxtase coletivo. E é com a ideia deste cenário que eu reflito sobre gostar de estar aqui, entre tanta gente diferente, diferentes culturas, diferentes clubes e, sobretudo, gente que não quer saber de futebol para nada.
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