O Johnson veio à superfície apregoar mais fanfarronices conservadoras, no habitual tom de bobo da corte que se normalizou num país que já não entende o humor dos Monty Python, e aparece hoje na capa dos jornais de boca aberta e com o seu já patenteado cabelo desgrenhado. Parece que não há espelho que lhe diga para o cortar rente, como eu quando vou ao barbeiro Salsa: "pente um dos lados e atrás e pente três em cima." Não falha, seja aqui no melhor barbeiro turco de Kilburn ou, quando de férias, no barbeiro de aldeia, o Vilaça de S. Miguel da Carreira. O Jim Morrison dizia que os seus piores momentos foram cortes de cabelo, mas o Johnson tem um cardápio de trapalhadas que vão muito além das revoltas capilares em dias de tumulto conservador. E eu estou para aqui a falar de cortes de cabelo quando se aproximam as eleições mais importantes dos últimos vinte anos. Parece que o país está prestes a mudar de direção, mas isto pode ter muito pouco impacto quando a Inglaterra ainda está ao lume no campeonato europeu de futebol. Mas eu até compreendo isso de não cortar o cabelo porque gosto muito pouco de ir ao barbeiro. Ter de tirar os óculos para cortar o cabelo deixa-me sempre à deriva. Fico a contar os minutos para sair dali, e quando o barbeiro vem com o espelho para ver se gosto da rapadela na nuca, parece que fico a ver pior quando coloco novamente os óculos. Digo sempre que está muito bem e desando. As razões que me levam ao barbeiro nesta idade são duas: uma condição de pele que me dá menos comichão quando tenho o cabelo curto; e o facto de ter menos cabelo a crescer (para não dizer mais a cair) em cima da cabeça. De resto, tenho saudades dos meus vinte e trintas, quando tinha muito mais cabelo e me dava ao luxo de o deixar crescer. Os meus piores erros na vida não passaram necessariamente por cortes de cabelo, mas andaram lá perto. E para rematar, no embalo das analogias, apenas sei que a política do Reino Unido precisa de um bom corte de cabelo, pente um dos lados e atrás e pente três em cima, de preferência.
As eleições estão a acontecer agora, as urnas prestes a encerrar, e eu já votei há alguns dias por correspondência. Sendo de esquerda e pouco dado a esquecimentos daquilo que tem sido o desgoverno nas mãos dos conservadores, não é muito difícil adivinhar onde o meu voto foi parar. Aliás, este é o meu primeiro voto em eleições legislativas britânicas e espero que sirva para mudar alguma coisa. Foi este o único grande direito, pelo menos o mais óbvio, que adquiri com a naturalização britânica, embora, bem lá no fundo, tenha sido mais uma reação a toda a instabilidade que se gerou no período pós-brexit e os constantes pregões políticos anti-emigração e anti-Europa. Eles não querem chamar as coisas pelos nomes, mas não é só na Itália, na França e em Portugal, onde os movimentos de extrema-direita andam a ganhar força, que se vê uma espécie de fascismo camuflado a infiltrar-se e a normalizar-se. Mas eu nem queria estar aqui a falar de política porque de política percebo pouco ou nada. E não é por ter direito ao voto que me sinto mais cidadão; era antes o não me sentir um cidadão completo por não ter voto num país onde vivo há já alguns anos. Não sei se isto faz sentido. Da mesma forma que parece não fazer sentido para algumas pessoas não apoiar a equipa de futebol do país onde se vive ou onde se nasce. Mas porquê? Esta coisa das pátrias, dos valores britânicos e dos valores lusitanos, de se destacar este ou aquele só porque é da nossa nacionalidade, ou da nossa religião, e que só por isso eu tenho de abençoar, não passam de uma desculpa para domesticar a carneirada e criar fundamentalismos bacocos. Tanto pode ganhar a França, a Alemanha, a Espanha ou Portugal, mas eu apenas celebro a mudança. O futebol só serve mesmo para comer tremoços.
O Fausto morreu e eu só penso no "Coça a Barriga". Lembro-me de ser pequeno e de o ouvir pela primeira vez nos megafones de um carro de campanha política do PCP que circulava por Barcelos. Desde essa altura que o Fausto se tornou a presença eterna do músico que ia rir muito, gozar mais, a rodopiar num carrossel de fantasmagorias de bandas plásticas, diabos de barro de Galegos e cabeçudos. Se quisermos, temos na fanfarra de bombos e adufes do "Coça a Barriga" a essência do nosso folclore de raízes mais profundas elevada à condição erudita de uma orquestra de ritmos. Posso ouvir o "Coça a Barriga" quando me apetece, mas ouvi-lo através de megafones de campanha cidade fora é outra. É inadmissível um país andar em campanha política e não haver um único automóvel com um altifalante a debitar pantominas, vitaminas e nicotinas pelas ruas. Quando subia a Kilburn High Road no dia em que o Fausto morreu, quando o Portugal-Eslovénia estava para começar, ia a pensar nele e no "Coça a Barriga", a tentar forçar uma alucinação sonora ou uma miragem acesa do que estou a escrever neste parágrafo, quando vi um grupo de homens a descer a avenida pelo meio da estrada. (Estranho escrever 'a descer a avenida pelo meio da estrada'.) Não eram muitos, mas faziam um barulho desgraçado a gritar e a bater em bombos. Fiquei apenas a perceber que estavam a celebrar alguma grande vitória de uma equipa de futebol, talvez árabe, não faço ideia. Houve ali dois ou três segundos em que eu pensei que estavam a cantar o "Coça a Barriga". Quis acreditar nisso, porque se há uma festa com bombos e muitas vozes, tem de haver nelas qualquer coisa de "Coça a Barriga", e nicotinas, pantominas e vitaminas. Infelizmente, era apenas uma claque de futebol, absolutamente alienada de outros campeonatos e de outros mundos. E se os portugueses fossem verdadeiramente patriotas, cantavam o "Coça a Barriga" em vez d'"A Portuguesa". Jogos de futebol há muitos, génios há poucos.
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