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2.9.24

Crónicas de Londres #11

Sou assinante ocasional da revista WIRE. Quando estou em maré de leituras rebuscadas sobre as tendências mais obscuras do mundo da música e quando navego pelas páginas de escrita densa sem me perder, faço questão de assinar a revista por um ano para ver como corre a assiduidade da leitura das sonoridades mais à margem. Porém, quando atravesso um período de dois ou três números em que leio só por ler, sem muitas vezes terminar o texto, tal é sinal de abandono, ou melhor, de deixar a assinatura expirar até ver, ou seja, até me sentir novamente disposto a dar continuidade à torre de revistas empilhadas no canto do quarto. Como não gosto de me livrar deste tipo de coisas, entro em modo "soft" de não aquisição de novos números. Por muito imbecil que isto soe, custa-me mais livrar-me de revistas velhas do que deixar de comprar novas. A opção de assinatura digital ainda não entrou nesta equação por enquanto. Seja como for, tenho de dizer o seguinte: a revista WIRE completa a trindade essencial da boa degustação da música mais à margem, da improvisada à experimental, da folk mais pura à eletrónica mais primordial, da música concreta às field recordings, e por aí. As outras duas são: o Café Oto, em Dalston, cuja última memória foi um soberbo concerto de Rafael Toral de apresentação do recente "Spectral Evolution" num domingo à tarde (comprei a última cópia em vinil a preço de membro e fiquei com mais um disco autografado - uma lista de histórias a merecer também uma crónica); e o programa de rádio "Late Junction" da BBC Radio 3, apresentado à vez por Verity Sharp e Jennifer Lucy Allan - poderia mencionar aqui também a rádio Resonance FM que, no cômputo geral, será certamente a versão rádio mais próxima do Café Oto e da revista WIRE, mas não sou um ouvinte assim tão assíduo. Mas recomendo caso as duas horas semanais de "Late Junction" não sejam suficientes para abrir os horizontes.

A minha última assinatura da WIRE teve como impulso uma edição especial com 20 páginas dedicadas aos The Fall (número 472) e uma capa de rabiscos amarelos em forma de Mark E. Smith num fundo vermelho. A recente edição com 19 páginas dedicadas ao mundo sonoro de David Lynch (finalmente uma edição dedicada!) era, à partida, suficiente alor para um novo mergulho, não fosse apenas versão digital, mas, desconfiado que este pode ser apenas um especial em 12, decidi conter-me (pelo menos para já enquanto não coloco outras leituras em dia) e, em vez da assinatura, fui à loja comprar a revista. Ao bater a uma hora, em dia de visitar o escritório em Kings Cross, quanto não fosse para aproveitar o ar condicionado em dia quente, atravessei o Granary Square, passei para o outro lado do canal, desci o Pancras Square e entrei na primeira loja de revistas da estação de St Pancras. Era um bom dia para comprar o almoço num take away qualquer e ficar ao sol como os sardões. Centenas de pessoas tiveram essa ideia, mas eu não. Não no dia em que havia decidido comprar a WIRE com o David Lynch e a Chrystabell na capa. Comprei a revista e, depois de um pequeno desvio para comprar café no Waitrose (não sei porque é que fui comprar café antes do almoço, só pode ter sido uma decisão inconsciente à sombra do célebre snack de café e tarte de cereja de Twin Peaks), rumei novamente ao escritório. Depois, folheei a revista à frente do prato durante os meus auto-definidos 15 minutos de almoço, cenário que o meu avô materno reprovaria com toda a certeza.

O meu interesse pela obra de David Lynch não se consubstancia apenas pela estética e direção cinematográfica. Existem pelo menos duas outras dimensões que explicam, passe a redundância, este inexplicável (ou será antes explicável?) interesse pela obra fílmica e, essencialmente, sónica de Lynch: o primeiro, mais sensorial/emotivo, tem que ver com emoções enraizadas de um genérico e imagens avulsas (apesar do medo, de vez em quando espreitava algumas sequências) da série Twin Peaks no início dos anos 1990; o segundo tem um pendor intelectualizado (talvez uma busca tardia de uma explicação para essa carga emotiva enraizada) em contexto académico, quando fiz um segundo desvio de percurso (o primeiro, o maior, tinha sido a fuga ao Direito) em jeito de fuga do mundo técnico dos estúdios e da música comercial para as entrelinhas do design sonoro no cinema e na arte abstrata. Depois de um ensaio sobre a influência da música concreta em "Tomorrow Never Knows" dos Beatles e outro sobre a tecnologia do looping, em 2009 decidi escrever sobre a série Twin Peaks. O título traduzido era algo como 'A Abstração da Pop Através da Mecânica do Filme', título demasiado pomposo para uma proposta que passava por uma explanação tríptica da musicalidade de Lynch (a saber: a dream pop, o design sonoro industrial e o fator-Badalamenti) e que deixava em aberto uma extensa propensão para a influência cinemática no mundo da música que ia de Amanda Palmer aos Stars of the Lid. O ensaio não teve seguimento e, por isso, nunca iria parar a revista alguma, mas um dia destes vou fazer uma revisão do texto original e publicá-lo algures.

A influência de Lynch é notória em passagens derradeiras dos Kafka. A mais óbvia e prevalente data da gravação mais esclarecida, última e única, precisamente no dia 30 de outubro de 2004 (já lá vão 20 anos!), no último concerto dos Kafka no auditório de S. Bento Menni em Barcelos. Chama-se "And Then We Shall Forget / Falling", faixa número doze de uma gravação em minidisc disponível no Bandcamp. Não sei se existe aqui a audácia de uma versão da célebre "Falling" porque tal seria um autêntico sacrilégio de todas as versões possíveis que os Kafka alguma vez poderiam fazer. Prefiro ouvir isto não como uma versão, mas antes como uma espécie de cameo. A primeira parte, inicialmente composta para uma sessão de poesia, antes de ter título, já possuía uma aura de inspiração no misterioso Syd Barrett. A primitiva versão até tinha alguns fragmentos de letra com alusões óbvias ao célebre outsider, fragmentos esses que se dispersaram com um excerto do filme de animação "Wind in the Willows". Não me recordo ao certo de onde veio a ideia na altura, mas é bem capaz de ter sido uma lógica transversal ao primeiro disco de Barrett com os Floyd, "The Piper at the Gates of Dawn", título do capítulo em destaque do livro de Kenneth Graham e do qual também surgiu o título póstumo "And Then We Shall Forget", também uma passagem do mesmo capítulo. Não sei exatamente onde ocorre a simbiose, mas há nesta embriaguez do sonho do "Wind in the Willows" qualquer coisa de Twin Peaks. Daí não ter sido de todo escusado o cameo de "Falling" na parte final desta inédita versão no S. Bento Menni, até porque os acordes e as tonalidades eram as mesmas.

O fantasma de Twin Peaks marcou também a fase mais misteriosa de Katzgraben, projeto que surge após a desintegração dos Kafka e que, de certa forma, registou a possível continuidade dos Kafka na sua vertente talvez mais cinematográfica. Katzgraben é descendente de Kafka no próprio nome. Foi o título dado a um interlúdio instrumental do EP "Her Only Nightgown", após uma sessão de cinema no TGV em Coimbra dedicada à obra de Bertolt Brecht. A peça principal era "A Mãe Coragem", mas foi o título Katzgraben que ficou. Não apenas por ser um título fortemente enigmático - qualquer coisa como "cemitério de gatos", nome de terra que fica algures na Áustria - mas também por ter sido uma sessão de cinema sem legendas, o que me deixou à beira do precipício do suicídio abstrato. Tal imensidão abstrata apenas poderia ter dado origem à criação de uma banda sonora para uma ideia de peça de teatro em formato filme. Ainda hoje não sei exatamente o que pensar destas coisas, apenas sei que todas elas fazem parte da mesma dimensão de Twin Peaks e toda a imensidão misteriosa que o define. Assim sendo, a tal "And Then We Shall Forget" faz uma última aparição numa matiné de Katzgraben na Union Chapel, em Islington, cujos ensaios de uma semana ficaram registados no EP "We Burn Daylight".

Penso nestas coisas todas quando abro a revista WIRE dedicada à obra de David Lynch. São textos essenciais sobre uma intemporalidade impossível de definir; da mesma forma que eu, passados estes anos todos, já não sei articular muitas das ideias que fermentavam em 2009 por serem, talvez, demasiado vagas, estes textos já surgem numa época de revisão de cenas passadas que, de certa forma, já não estão ao nível exigido para uma verdadeira imersão na obra de Lynch: um estado de devaneio, perdição, velocidade, ansiedade, pesadelo, sempre na contramão da realidade.

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