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2.9.24

Crónicas de Londres #12

Contra todas as tendências de moço bem-comportado, avesso ao festivaleiro tremor de cores garridas e danças frenéticas, numa alegria que sempre me pareceu trapaceira por apenas durar enquanto há festa, desci as ruas de bicicleta para ir espreitar, pela primeira vez em já muitos anos de vivência no estrangeiro londrino, o último dia do carnaval de Notting Hill. Até então, as experiências carnavalescas nunca haviam passado de páginas de jornal, tantas vezes de polícia, facadas incompreensíveis, ou então a ver uma carruagem de metro invadida e atolada por uma cambada de gente espampanante a caminho da festa em horas ainda diurnas, ou a regressar em figura decadente e esborratada em horas noturnas. Venha o diabo e escolha. De modo que, apesar de tudo isso e de uma cruz assente no evento, dei por mim a atravessar as barricadas de polícia na Harrow Road, para me deparar com um início de festa (pouca gente ainda) e uma tabuleta, entre muitas, a publicitar o uso de uma latrina, daquelas de festival, por três paus, e o direito a saltar a fila por mais dois paus. Ou seja, um alívio urinário rápido por cinco, talvez ao preço da bebida, mau para os aflitos. Só por aqui já dá para perceber as dimensões da coisa. Ao mesmo tempo que, dadas as hipotéticas dimensões dessa coisa em hora de ponta, não se percebe o preferir gastar uma nota com vergonha de um alívio no meio da rua. De certeza que ninguém levaria a mal.

Em dia de carnaval, quando todas as lojas da Portobello têm as montras tapadas com placas de madeira, cenário só visto em dias de motim e paranoia de pandemia, o negócio divide-se entre montar uma banca de jerk pork/chicken e pina coladas, ou abrir o corredor para a casa de banho e pagar a um porteiro para cobrar os tais três ou cinco paus. É loja sim, loja sim. Entre as lojas, há os sound systems, racks de colunas com mais de cinquenta anos, a bombar os mesmos graves do tempo em que o Bob Marley passeava por Londres e, entre um grande charro e outro mais pequeno, se lançava numa carreira internacional estonteante, seguramente digna do talento sideral do homem. Tirei uma foto a um autêntico mural de som da Gladdy Wax Sound System e, por momentos, li “war” em vez de “wax”, tal era a disposição gladiadora de sound systems pelas ruas, cada uma mais sísmica do que a outra. E se acham que um tremor de 5.3 na escala de Richter no meio do Atlântico tem impacto, não queiram usar óculos com menos de cinco dioptrias perto daquelas coisas. Estilhaço certo. E este tremor, aliado ao tremor de imaginar a rua ao rubro no ponto alto da festa, ou seja, por volta das seis da tarde, fez com que o meu habitual reconhecimento de território pós-férias ficasse por ali. Entrei na rota do canal e fiz um desvio por Little Venice, depois pelos estúdios de Maida Vale da BBC, numa prazenteira pedalada de domingo nas zonas limítrofes sónicas do carnaval. Quero dizer com isto que me orientei por decibéis no caminho para casa - a fugir da cacofonia!

O meu carnaval é antes - e mais! - a escultura do António Ramalho (AR) que eu trouxe na mala: um semblante espantado com víboras espetadas para fora da cabeça e mamas despidas, pontiagudas, a desafiar a gravidade, num corpo de escamas mitológicas: a Medusa. Fiquei hipnotizado por ela na pobre (diga-se) Feira de Artesanato de Barcelos. Pobre porque, enfim, é uma feira onde os portugueses vão só comer e ver. Só isto explica o preço de uma medusa de AR ao preço de três ou quatro mijas a saltar filas no carnaval de Notting Hill. Uma das víboras partiu-se durante a viagem (colei-a prontamente), e eu começo a desconfiar que foi antes uma tentativa de fuga para Portobello. Estou agora a olhar para a Medusa e a pensar nisso. Se eu fosse Medusa, ou víbora de uma Medusa, assim que me visse longe da feira de artesanato dos portugueses de barriga farta e palito na boca, a ponderar vinte paus na compra de um galo de Barcelos contemporâneo (percebem esta estética do galo contemporâneo, não percebem?) ou três copos de vinho verde branco com muitos sulfitos para digerir melhor a jantarada, iria certamente arriscar o coiro para me entranhar num carnaval que está mais ao nível do figurado do que todas as festas das Cruzes e de paróquia juntas do nosso querido mês de agosto.

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