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26.9.24

Crónicas de Londres #13

Em meados dos anos 1960, os gigantes do rock, Mick Jagger e Keith Richards, partilharam uma casa (não sei se na altura já estava dividida em múltiplos apartamentos) com o manager/produtor da banda, Andrew Oldham. Nessa época, por volta de 1964, os Stones eram ainda uma banda de covers de blues rock e faziam parte da constelação de grupos que povoavam a cena British Rhythm & Blues: The Yardbirds, Them, The Animals, The Pretty Things, The Zombies e Small Faces. Lançaram, nesse ano, dois discos: o primeiro, homónimo, em abril (gravado em janeiro e fevereiro), que incluía ‘Route 66’ e ‘I Just Want to Make Love to You’; e o segundo, intitulado ‘12x5’, em outubro (gravado entre fevereiro e setembro), que tinha ‘Time Is on My Side’, ‘It's All Over Now’ e ‘Susie Q’. As primeiras tentativas da dupla Jagger/Richards, ‘Good Times, Bad Times’, ‘Congratulations’ e ‘Grown Up Wrong’, apareceram neste álbum, mas ainda estavam muito longe de merecer o estatuto de lado A de um single e ainda mais longe de chegarem aos tops. Perante tal cenário, e dado o crescimento exponencial da experiência de autor protagonizada pelo pioneiro Dylan, o manager/produtor Andrew Oldham teve a brilhante ideia de os trancar na cozinha com a liberdade condicional de dois ou três singles originais com potencial para alcançar o top. A experiência (chamemos-lhe experiência, não sendo mito ou lenda) correu bem, e ‘(I Can't Get No) Satisfaction’ saiu em agosto de 1965 – um single de garage rock e proto-punk, já bem distante do estilo R&B dos primeiros anos. Logo depois, em outubro, saiu ‘Get Off of My Cloud’. A fórmula mágica da maior banda de rock de todos os tempos foi encontrada numa cozinha da minha rua, a Mapesbury Road. A tal casa fica mesmo aqui ao lado, a cerca de 50 metros, no número 33, a idade em que eu, muito provavelmente, morri para o rock. Verdade seja dita, nunca experimentei trancar-me na cozinha numa tentativa de ressurreição – talvez precisasse de um manager com ideias brilhantes para isso – mas creio que o mais certo seria começar a lavar pratos ou a amassar pão (o tal pão que o Tiago amassou).

Esta constatação, encontrada em blogs locais e páginas soltas da Wikipedia, faz-me refletir sobre como é viver aqui em Kilburn e como este cenário seria diferente nos anos 1960. Leva-me a uma investigação online inicial que pode lançar alguma luz sobre este vazio rockeiro de Kilburn. A verdade é que, durante todos estes anos aqui, nunca me cruzei com ninguém com vontade de tirar o pó às guitarras. A maior ironia foi ter-me mudado para Kilburn pouco tempo depois de o estúdio/local de ensaio dos The 99 Call, na Finchley Road, mesmo ao lado do Camden Arts Centre, ter deixado de o ser, porque, mais uma vez, um senhorio ambicioso resolveu “fazer obras”. E assim, a vibe de Londres foi-se perdendo: locais de ensaio que fecham, salas-cafés-pubs com música ao vivo que deixam de conseguir suportar os custos da competição com mais um bloco de apartamentos (o Luminaire, por exemplo, era um espaço interessante na Kilburn High Road). Muitos músicos, alguns que chegaram a ser parte do meu círculo de amigos por um bom tempo, tiveram de deixar Londres porque a vida estava demasiado cara ou, simplesmente, porque a expansão da cidade-universo continua a acelerar. E isto já acontecia antes do maldito Brexit e da pandemia.

Os The 99 Call, para quem não conhece, são descendentes dos Tram, uma banda slowcore que ouvi pela primeira vez numa compilação-tributo a Tim Buckley – Sing A Song For You: Tribute To Tim Buckley – que descobri na Biblioteca da Sereia no meu último ano em Coimbra. Tornei-me baixista dos The 99 Call no ano em que, ironicamente, morri para o rock, 2011, e fizemos alguns concertos: dois em Londres e dois fora, em festivais em Donostia (San Sebastián) e Barcelona. Bons tempos. Entretanto, um membro foi morar para os lados de Bristol, outro para Manchester, e as luzes apagaram-se lentamente até se extinguirem por completo quando o músico-mor teve de deixar a casa-estúdio-sala-de-ensaio onde vivia na Finchley Road. E eu não deixei de pensar: atravessei a cidade inúmeras vezes para ensaiar com os The 99 Call, sempre com entusiasmo, ansioso por mais ensaios e talvez novos projetos, improvisos, gravações. E agora que estou a 10 minutos de distância, pufff, no more, nada, finito, kaput! Londres é assim: uma distância filha-da-pura para conseguir enraizar amizades e manter uma rotina de encontros, ensaios e locais de ensaio – um mundo que, sem dúvida, já existiu, mas que já não existe mais. E assim, quando cheguei a Kilburn, dei aquele salto no vazio à la Yves Klein, apenas para aterrar (tal como ele) no afago de um colchão depois de mais um dia de trabalho. Durante estes anos, nunca encontrei ninguém com vontade de fazer alguma coisa, porque, na verdade, estas coisas não acontecem em cidades vastas e sem âncoras locais. Provavelmente cruzo-me todos os dias na rua com outros como eu, anónimos que também morreram para o rock e que não encontram um espaço (porque ele não existe) para um momento de criação coletiva – algo que ainda acredito que acontece em cidades pequenas, onde todos se conhecem, pelo menos de vista. Agora, imagine-se ir ao pub da esquina, noutros tempos, e encontrar o Mick Jagger, o Keith Richards, o Brian Eno, o Evan Parker... todos eles viveram por Kilburn e deixam-me a imaginar este cenário de outra forma. E há ainda aqueles que são menos conhecidos, aqueles cujo nome se foi apagando com o passar dos anos, personagens secundários numa imensidão de gente que, infelizmente, não chegaram aos holofotes maiores do rock e afins.

Se há 10 anos Kilburn ainda tinha uma boa sala onde se podiam ver concertos e conhecer malta ligada à música, e há 20 ou 30 anos era possível cruzar-se com um músico célebre no supermercado, há 50 anos toda esta zona entre Kilburn, West Hampstead, St. John’s Wood/Abbey Road e Finchley deveria ser um foco primordial da cena londrina. Em West Hampstead, havia o Klooks Kleek, um clube de jazz e rhythm 'n' blues no primeiro andar do Railroad Hotel (que ainda existe, mas agora apenas como pub), por onde passaram John Mayall, John Lee Hooker, Howlin' Wolf, Jimi Hendrix – não é nada de estranhar que Jagger e Richards andassem por perto, pois não? Alguns anos depois, já com o nome The Moonlight Club, o espaço abriu portas ao pós-punk dos Joy Division e dos The Birthday Party. No edifício ao lado, ficavam os famosos Decca Studios (agora o English National Opera), onde os Beatles fracassaram na audição de 1 de janeiro de 1962, ouvindo a famosa frase “não têm futuro no show business”. Por lá gravou muita gente conhecida: John Mayall's Bluesbreakers, The Moody Blues, The Zombies, David Bowie, Marc Bolan, Fleetwood Mac de Peter Green e, claro, Mick Jagger e Keith Richards (no notável primeiro EP de 1964 dos The Rolling Stones), ambos moradores da Mapesbury Road número 33, pseudo-chefes de cozinha e ocasionais músicos em liberdade condicional.

Hoje, tudo isso parece pertencer a um tempo distante. A vibrante cultura que outrora definia o bairro de Kilburn foi lentamente engolida pela expansão desenfreada da cidade, onde o espírito boémio deu lugar a uma atmosfera cada vez mais corporativa e impessoal. Locais como o Klooks Kleek, os Decca Studios e o Luminaire, antes fundamentais para a cena musical, agora vivem apenas na memória coletiva e, é preciso dizer, nos confins infinitos da internet. Mas há uma coisa importante nisso tudo: agora, sempre que passo pela porta do número 33, dou um pinote ao ritmo da guitarra de Richards, que eu juro, pela Santa Piursa e pelo Diabo de Galegos, ainda toca pela janela da cozinha. E eu sou novamente um Jagger de 20 anos:

When I'm driving in my car
And that man comes on the radio
And he's telling me more and more
About some useless information
Supposed to fire my imagination
I can't get no, oh no, no, no!
Hey, hey, hey! That's what I'll say!
I can't get no satisfaction!

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