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3.3.22

HONK

No meu caminho para casa, logo a seguir à alameda das embaixadas de Kensington, no canto extremo do Hyde Park, parei para ver os cartazes junto à embaixada russa. Dei meia-volta na estrada e fiquei ali por alguns minutos. Dois polícias vigiam a entrada e colocaram grades junto ao muro para que as pessoas não se manifestem muito perto. Os muros estão cheios de coisas escritas, algumas em russo, e há flores amarelas pousadas nas grades. Do outro lado da rua, onde eu estou, estão os cartazes e um homem de idade a segurar um que diz HONK. Os carros que passam buzinam de uma forma discreta e eu aprecio o cenário. Nisto passa um ciclista que se vira para o homem e diz Fuck Off. O homem, indignado, fica todo exaltado porque não consegue conceber que alguém possa dizer coisas dessas. As razões do Fuck Off podem ser muitas, mas indicam muito o mundo em que vivemos. Quero dizer que não me parece que o ciclista fosse um russo amigo do Putin, mas antes um daqueles tipos que nunca está a favor de nada e que se manifesta por nada contra um homem que, apesar de não fazer nada para que a guerra acabe, está ali a manter uma chama viva. Há muitos 'ciclistas' assim. Já reparei neles em muitos contextos e creio que são grande parte do problema porque se manifestam contra aquilo que é um gesto simbólico. São os mesmos que apupam os jogadores de futebol que se ajoelham e são eles que alimentam as máquinas monocromáticas deste estado de coisas.

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