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30.12.20

Relexões 2020 #2

Fazer listas de discos do ano tem sido tarefa cada vez mais difícil. Primeiro, porque a forma como escutamos música é cada vez mais um exercício de fundo quando fazemos outras coisas. Raramente paramos para ouvir um disco com atenção, para prestar atenção às letras, ao nome das músicas, ou para ler uma boa review numa revista. Segundo, porque vivemos cada vez mais num mundo virtual onde a música corre sem as interrupções para 'virar a cassete' ou 'levantar a agulha e virar o disco'. Falamos claramente de uma desmaterialização da música que já tem uns bons anos solidificados nos nossos hábitos e, por muito que se continue a colecionar discos em vinil, é o Spotify que absorve a maior parte do nosso tempo. Terceiro, porque vivemos a nova era das mil e uma coisas em simultâneo, muitas delas inúteis, autênticas sanguessugas do nosso precioso tempo. Sim, falo do tempo que perdemos com o raio do iPhone (isto a merecer também uma reflexão, mais adiante), com as redes sociais, com a pressa de absorver tudo aquilo que acontece no presente (tenho colegas cujo único propósito é ouvir tudo aquilo que sai à sexta-feira no Spotify e partilhar com todas as pessoas no WhatsApp). A consequência disto é nunca ter tempo para nada que exija um pouco mais de atenção. Ler um livro, por exemplo. Solução para 2021 e adiante: criar hábitos forçados de ouvir um disco por inteiro e escrever algo interessante sobre ele (seria ótimo comprometer-me a fazer isto todos os dias), aprofundar um pouco mais as ideias sonoras que nele habitam (ler boas reviews é cada vez mais importante numa era em que as reviews estão a desaparecer do mapa) e fazer disso uma meditação otobiográfica (uma espécie de subsecção da Otobiografia do Piurso).

Estou agora a tentar fazer uma lista dos vinte discos mais interessantes de 2020 (a completar entretanto) e sei, logo à partida, que salvo um ou outro, não vou saber dizer de cor os títulos deles ou descrever as capas. Pior, nem sequer sei de cor o nome de alguns artistas. Assim sendo, a questão que se coloca é a seguinte: será que tentamos ouvir mais do que aquilo que podemos ou será que já não ouvimos música com a atenção que ela precisa? Enquanto penso nisto, surge as questões óbvias:  será tudo isso em simultâneo? Será que precisamos de ouvir tudo aquilo que acontece num ano, no presente, agora mesmo neste preciso minuto? Não, não temos. O que temos de fazer é abrir as portas e deixar a música entrar, esperar que ela se sente no sofá, conversar com ela, fazer-lhe perguntas. Daí que me pareça crucial o tal exercício de ouvir um disco por dia (ou durante vários dias) com toda a atenção que ele merece e esperar que o nosso cérebro comece a habituar-se novamente a explorar as sabedorias escondidas. Para tal não precisamos de colecionar, de saber tudo aquilo que sai à sexta-feira, de ter um detetor constantemente ligado à procura da próxima novidade. Só precisamos de ouvir. 

Aqui está uma lista de 20 discos de 2020 (para continuar a ouvir em 2021):

Alabaster DePlume - To Cy & Lee: Instrumentals Vol. 1
Mary Halvorson's Code Girl - Artlessly Falling
Jeff Parker - Suite for Max Brown
Chicago Underground Quartet - Good Days
Rob Mazurek/Exploding Star Orchestra - Dimensional Stardust
SUSS - Promise
Andrew Tuttle - Alexandra
Thurston Moore - By The Fire
Bill Callahan - Gold Record
Neil Young - Homegrown
Bob Dylan - Rough and Rowdy Ways
Yo La Tengo - We Have Amnesia Sometimes
Hiroshi Yoshimura - Green
Jim White, Marisa Anderson - The Quickening
Adrianne Lenker - instrumentals
Richard Skelton - These Charms May Be Sung Over A Wound
Eerie Gaits - Holopaw
Gunn-Truscinski Duo - Soundkeeper
Sam Prekop - Comma
Mary Lattimore - Silver Ladders

(Mas verdadeira lista a explorar continua a ser a do Aquarium Drunkard AQUI)

E, de acordo com o site Last.fm, estes foram os dez discos que eu ouvi mais em 2020:

George Harrison - All Things Must Pass
Boxhead Ensemble - Electric Guitar
Lankum - The Livelong Day
Alabaster Deplume - To Cy & Lee: Instrumentals Vol. 1
Bob Dylan - Rough and Rowdy Ways
Jeff Parker - Suite for Max Brown
Chicago Underground Quartet - Chicago Underground Quartet
Jeremy Cunningham - The Weather Up There
Eerie Gaits - Holopaw
Hiroshi Yoshimura - Music For Nine Post Cards

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