1. A música parou. Talvez um intervalo, talvez uma passagem silenciosa para outro espaço de um tempo que ainda vem. O certo, depois destes meses todos, é ter perdido a inspiração. E a grande questão que se coloca agora é: para quê, para onde, para quem? Estar em casa a tempo inteiro não é necessariamente uma oportunidade. É antes um cenário estático onde pouca coisa nova gravita. Reparei que no princípio havia uma vontade de tudo fazer. Havia gente desconhecida, embalada pelas colaborações momentâneas instigadas nas redes sociais, a criar uma agitação leve nos meus rascunhos do passado. Mas eu nada fiz. Fiquei apenas a assistir à passagem dos ventos. Vi algumas boas ideias: uma vocalização para um drone de guitarra; um poema para uma guitarra acústica esquecida; e um empurrão das minhas ideias solitárias para um bom arremesso de bateria-rock. Porém, ficou tudo no ar, tudo suspenso, tudo apenas um episódio de primavera que não teve resultado fora do mundo digital.
2. Há cerca de um ano, aconteceu o improvável reencontro de Katzgraben no Pop Cave (Prata da Casa, 2019) com um improviso eletrónico ambiental de cerca de vinte e cinco minutos. Terminou com um 'encontremo-nos daqui a 10 anos', mensagem profética para uma década imprevisível (repare-se que eu já nem estou aqui a pensar no ano de 2020, o ano da pandemia; estou antes a pensar em intervalos maiores de décadas) e momento fulcral para uma quebra do duo e a criação de duas dimensões paralelas. O ensaio ficou por ali (nada fizemos com aquela colagem de sonsa), mas o RP partiu de vez para os sintetizadores modulares e eu para os confins do MAX/MSP (um pouco aos solavancos, diga-se), e acabamos por dar um novo sopro a uma ideia antiga de colaborações à distância: a gutta-percha reavivou-se no Bandcamp para algumas experiências sónicas solitárias. Fica a ideia de uma colaboração apenas como plataforma porque as colaborações em que misturamos ideias são cada vez mais raras. Pode-se mesmo dizer que é já um hábito em perigo de extinção.
3. Mais difícil tem sido reencontrar as ideias de 2019 programadas via MAX-MSP. Foi para um picnic freak do NIB que surgiram algumas ideias de improvisos com a imprevisibilidade dos botões (nesta altura Katzgraben era uma miragem) e a continuidade disto acabou por acontecer algures entre o Bandcamp da gutta-percha e o Bandcamp de uma ideia de corti-cose com field recordings, ou life recordings como ouvi alguém dizer de uma forma muito mais acertada. O corti-cose é uma tentativa (quase fora de prazo) de dar algum sentido às gravações que fui acumulando ao longo dos anos e de ocupar melhor o meu tempo a arrumar sons como quem arruma fotografias em álbuns. A paragem de 2020 parece fazer mais sentido a arrumar gavetas do que a continuar a criar rascunhos para encher mais gavetas. Assim sendo, comecei a agrupar tudo por temas ou a tentar justapor ideias díspares na mesma linha cronológica. O resultado, nunca muito previsível, tanto pode ser a contemplação de sons abstratos que, muito provavelmente, só eu consigo identificar (quando consigo), como também conversas com avós, os primeiros sons de uma criança ou viagens de comboio. O mais difícil disto é dar continuidade sem perder o alcance do presente. Ou seja, terei de ser mais rápido a organizar os sons de modo a conseguir apanhar o ritmo daquilo que continuo a gravar.
4. 2019 soou a despedida. Toquei duas vezes. Uma, no picnic freak (a segunda vez que fiz algo só) e outra no Prata da Casa, e fiquei sempre com uma 'ressaca' danada de nunca mais querer voltar a fazer o mesmo. A principal razão dessa 'ressaca' é o facto destas coisas apenas acontecerem ocasionalmente, uma ou duas vezes por ano, e não havendo sedimento, alguma regularidade, não me parece fazer muito sentido sair do ermo só para dizer que isto ou aquilo poderia ter outra dimensão se fosse feito mais vezes. Tudo soa a inacabado. E foi muito nesse estado de alma que lá fui até à casa do RL com o FC gravar alguns improvisos em pleno verão de covid, sem saber muito bem se deveria estar mesmo ali ou em casa a imaginar filmes sozinho. Faz diferença um verdadeiro encontro? Faz, certamente. Ouvi ontem (finalmente) as gravações e fiquei com uma primeira impressão que ficámos com um registo de peças ambientais, algo que foge bastante ao típico improviso surdo do NIB. São duas horas a precisar de alguns arranjos e golpes de ninja. Mas 2020 foi só isso.
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