14:11
Primeiro fim-de-semana da quarentena. O dia começa cedo com a cabeça a disparar pensamentos de trabalho depois de mais uma semana de convulsões oficiosas no limiar da sanidade mental. Não falo de mim. É só um novelo de coisas dos outros que fui guardando ao longo da semana e que agora se revelam como um aglomerado pernicioso. Por um lado, são as mentalidades egoístas de muitos. Por outro, é o esforço que alguns andam a fazer para monitorizado trabalho daquela forma de quem não tem mais nada para fazer. É um estado de coisas pernicioso e até perigoso, mas que me dá a imagem correcta das pessoas com quem eu trabalho. Na aparência são uma coisa, na formação ética são outra. Há um que anda a fazer gráficos para conseguir reavaliar a vantagem de desenvolver apps que têm como puro objectivo automatizar tarefas que são parte da substância dos bullshit jobs. Isto não faz sentido nenhum porque não é preciso fazer gráficos para perceber que uma coisa é feita muito mais rapidamente quando é automatizada. Não é preciso tirar um curso para perceber isso. O que este marmelo está a fazer é criar mais um bullshit job para ele como forma de justificar o trabalho que está a ser feito na direção certa. Ou seja, enquanto uns utilizam tecnologia para simplificar processos (eu), outros usam-na para complicar tudo muito mais e criar tarefas completamente redundantes. É esta a grande diferença. Enquanto uns tentam automatizar processos para acabar de vez com exercícios de copy paste que não fazem sentido algum no século XXI, outros inventam sistemas e tarefas que só complicam ou substituem um sistema por outro mantendo exactamente os mesmos mecanismos. E muito por causa disto que não consigo processar muito bem tudo aquilo que me rodeia neste escritório virtual. Pior fico quando começo a reparar em artimanhas de big brother. Vê-se bem que são pessoas que só vivem numa aparência de valores.
14:30
Continuando... as ruas estão cheias de gente, há novamente filas para os supermercados, e uma sensação cada vez mais acentuada de que tudo isto não faz sentido nenhum. Não parece existir uma justificação plausível para que estejam fechadas as galerias, por exemplo, depois de tantas preparações para a reabertura em setembro, quando há um aglomerado de gente na farmers market de West Hampstead. As pessoas, não podendo ir a uma galeria ou a um restaurante local, vão ficar aglomeradas noutros locais, nos supermercados, no take-away, em filas que nunca mais acabam. Assim sendo, é óbvio que vai haver menos distribuição pelos espaços e tudo vai ficar na mesma. Estou cada vez mais convencido que isto dos números tem muito mais a ver com a forma como as pessoas interagem umas com as outras, seja no pub, em casa, na rua, no parque ou no supermercado. A única forma de não entrar em contradições ou paradoxos é fechar mesmo tudo. E porque não por alguns dias? Eu preferia ter dois ou três dias por semana de absoluta quarentena do que andar a jogar este jogo de faz de conta.
Sem comentários:
Enviar um comentário