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10.11.20

Ecografias

09:44
Há meses que não esperava nesta paragem de autocarro pelo 16 ou outro qualquer para descer a rua até à escola. Fazemos o caminho sempre a pé. Mas desta vez estou aqui à espera de um autocarro para me levar até ao St Mary’s Hospital porque tenho uma ecografia marcada para as 10:30.

09:51
Verdade seja dita que não precisamos de ir para a escola de autocarro, mesmo quando chove. E se analisarmos bem as coisas poderemos constatar que chegamos sempre a tempo. Aliás, tenho quase a certeza de que só chegamos atrasados quando vamos de autocarro, seja porque confiamos demasiado nos horários, seja porque há trânsito a cinco minutos da escola e não podemos sair a meio da rua. Andar de autocarro pode, e é, muitas vezes um atraso de vida. Que o diga agora. Já passaram 15 minutos e ainda não sai de Kilburn.

09:59
Está um imbecil sentado dois bancos à minha frente, sem máscara, a tirar catotas do nariz. Não deve ser o único. Há outros que usam a máscara no queixo ou só na boca. E nenhum deles usa óculos como eu. Nem sequer sabem o que é ter lentes de embaciadas ou o peso no nariz a prender a respiração pelo nariz. Eu sei a diferença que isto faz quando ando de lentes de contacto. No fundo, são todos uns coninhas.

10:06
O cabrão espirrou.

10:08
E eu sai para outro lado, sem parar de pensar em todos os imbecis que já espirraram sem máscara aqui dentro.

10:26
Eu lembro-me da última vez que estive aqui nesta sala há cerca de três anos. Foi ao fim do dia e estava escuro. Lembro-me de ouvir vozes enquanto esperava. Lembro-me do silêncio da sala. E lembro-me do exame. Desligo o telemóvel.

11:02
Exame rápido. Tudo normal. A ecografia era para ver se havia alguma anormalidade na minha aorta e não há nada a apontar. Tem as dimensões certas e este constante pulsar na barriga é normal. Ou se calhar, penso eu, é um fluxo de sistema nervoso que se manifesta mais com o passar da idade. A médica perguntou-me se eu perdi peso recentemente pois tal pode ser a razão para sentir este pulsar. Como o meu peso tem sido constante, creio que é antes uma reação física sem razão aparente. Talvez seja o simples sinal de que estou vivo.

13:56
Regresso ao dia normal de ter de me ligar às tecnologias para cumprir tarefas de ofício. Uma coisa boa foi ter-me livrado de duas ou três reuniões matutinas que apenas servem para justificar o trabalho de alguns. Imensas coisas podem ser feitas durante as primeiras duas horas da manhã. Uma reunião diária, além de ser inconveniente, é muitas vezes perniciosa. Essencialmente porque estabelece um controlo invasivo do nosso tempo. Só isso explica o facto de nunca se fazerem reuniões logo às 9 da manhã (para mim seria ótimo porque chego a casa depois de levar o puto à escola e ainda estou a ligar a maquinaria) ou, por exemplo, depois do almoço entre as duas e as três horas. São puras decisões de managers que não têm nada mais interessante para fazer. Se estas decisões fossem tomadas por quem realmente trabalha, certamente que os horários seriam outros e a duração das reuniões seria bem mais curta. Só para falar daquilo que interessa.

Entretanto, ouço o som dos cavalos da polícia a passar na rua. Dantes passavam aqui mesmo à nossa porta das traseiras, mas agora com este prédio novo passam na rua principal. É um som bom de ouvir. Um ritmo lento de ferraduras a ecoar nas paredes das casas do quarteirão.

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