09:05
Mais uns dias com o jornal The Times à porta porque o vizinho foi mais uma vez para a ilha no seu habitual fim-de-semana prolongado. Não é um jornal que eu goste muito, típico editorial conservador disfarçado, mas como é de graça eu leio, pelo menos os títulos. Hoje, na primeira página, três notícias: a tragédia dos adolescentes na América que andam a disparar pelas ruas (a América já esteve mais longe de uma guerra civil); o preço do trigo que vai aumentar porque este ano foi a pior colheita dos últimos 40 anos; a lista de espera da NHS que conta já com 15.3 milhões de pacientes. Depois, temos a fotografia do batoque Borras a correr no St James Park a ver se perde os quilos prometidos e esta ideia nervosa da BBC querer impor uma licença obrigatória a par de todas as outras, como se já não pagássemos dinheiro que chegue de council tax. Isto faz-me recuar ao tempo em que a minha bisavó era a única pessoa que tinha televisão em casa. A preto-e-branco e como um filtro de plástico azul (nunca percebi muito bem o porquê disto). Fazia questão de pagar a licença de televisão quando esta já nem era obrigatória, mas isso passou-lhe depressa. O resto são as notícias do costume. Típicas de uma quarentena prolongada, sempre a manter o entretenimento desenfreado de quem já não sabe muito mais o que fazer da vida. Ah e como se não bastasse, o Borras vem dizer que existem algoritmos mutantes nos exames das escolas em mais uma típica desresponsibilização ao espelho. “Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais borras do que eu?” Enquanto isso, as ruas continuam vazias, não há turistas, não há nenhum fôlego fora de casa e vem aí o inverno. Mas o que me preocupa mais nem é a tal segunda vaga ou os surtos típicos das gripes. O que me preocupa é os dias serem pequenos, o frio, a melancolia, a escuridão. Daqui até ao Natal vai ser sempre a descer.
18:30
Chuva e trovoada. Tempo perfeito para quem rumina em casa. E hoje já é quinta-feira. Primeira semana de trabalho quase completa. E enquanto escrevo isto avisto um vizinho na janela a preparar alguma coisa com o capacete de bicicleta enfiado na cabeça. Olhar pela janela é só uma casa cinzenta molhada e duas janelas sem luz. Cá dentro há desenhos-animados durante o dia todo e pouco mais do que isso. Preguiça, muita preguiça. Últimos cartuchos antes do regresso à escola. Só as minhas férias é que são curtas.
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