15:43
Sexta-feira. Meio-dia de isto é aquilo e mais aqueloutro, e-mails e mais e-mails, e mais isto e aquilo e um sábado que nunca mais chega. Tenho dias em que acordo de manhã cheio de ideias para o final do dia, mas toda a minha vontade se desfaz passadas algumas horas no ofício do costume. Fica-se com a cabeça tão cheia que tudo o resto se desmorona. É nisto que uma pessoa anda. Cada vez mais nisto com o passar de meses e meses de quarentena. É que isto de ficar em casa é uma ilusão. É preciso sair, reencontrar pessoas, ver concertos e exposições. Só assim é que conseguimos desligar deste marasmo de ofício em que damos o nosso tempo para nada de jeito. E aos poucos vamos perdendo o entusiasmo para as coisas mais simples. Deixamos de criar. Vemos televisão.
16:08
Não sei se é assim tão interessante ter um fim-de-semana de três dias quando não se tem nada para fazer. Tudo é demasiado aborrecido, seja ver um filme, seja ler um livro, seja tocar uns acordes na guitarra. O melhor talvez seja não fazer mesmo nada. Olhar para as paredes.
16:12
Tudo isto é deprimente. Nem é a quarentena de 14 dias em si. É tudo o resto. Esta vida estática que se prolonga já há demasiado tempo, as notícias (sempre as notícias) que só nos mostram as desgraças do planeta, as condições de trabalho que não servem o propósito existencial, o definhar lento dos sonhos e daquilo que nós queremos ser e ter. Sobretudo há uma ausência que não nos dá nenhuma felicidade. Estar aqui é cada vez mais uma obediência ao que temos. Nada mais. Apetece riscar tudo de novo, abrir o mapa a e procurar novas geografias. Apetece não estar aqui nem em lado nenhum. Tudo isto é artificio. Tudo isto é uma farsa que nos deixa à deriva e não há muito mais a fazer. Só se sai de casa para ir a um supermercado ou para respirar ar puro entre as árvores num parque das redondezas. Já nada nos diz nada.
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