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É fim-de-semana, ficou frio e não há nada para fazer. Apetece estar a dormitar o dia todo, a ver filmes na televisão, a fazer qualquer coisa que nos faça esquecer este cinzento dos dias. Sair de casa nunca seria boa opção mesmo sem esta absurda quarentena, mas já começa a fazer falta fazer uma caminhada. Quanto não seja para ver pessoas na rua, caras novas, movimento de braços e pernas, inventar mercearia para comprar. Assim, resta-nos esta música melancólica dos Mojave 3 e uma tentativa para ver um filme e comer pipocas. Ainda me sentei no sofá a ouvir a palavra 'não' de dois em dois segundos. Esperei um pouco, escolhi um filme chamado Benji, sobre um cão rafeiro (nada de jeito no Netflix, diga-se) e depressa tudo se evaporou numa birra. O filme nem parecia muito mau, dava para entreter uma boa hora e meia... mas desliguei e regressei ao canto dos computadores e das dores de computador. Não há mesmo nada que me faça sair desta inércia dos dias, deste regresso à ilha para mais uma temporada incerta longe de tudo e de todos. Nada no horizonte - nem no quotidiano, nem no âmbito existencial - e a música continua a ser a única hipótese de fuga a tudo isto - agora 'Pale Blue Eyes' dos Velvet Underground - mas nunca a música que ficou por fazer. O entusiasmo raramente existe quando não temos gente por perto ou a possibilidade de esquematizar os sonhos em grupo. Escrever coisas é outra fuga. O único e grande problema são as horas de corpo parado, a página em branco, a página rasgada, a página sem sentido algum. É preciso fazer acontecer qualquer coisa no mundo que nos tire deste estado de coisas complicadas. É um mundo difícil, sem novas marés, nem novos silêncios. É uma imagem estática. Só prédios e sombras de pessoas dentro de casa. Fecho a janela porque começa a ficar frio. Os trinta e muito graus de há três semanas reduziram-se a uma metade cinzenta. Acabou-se o verão.
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