Não encontro coisas que escrevi há relativamente pouco tempo. Lembro-me de as ter escrito e de ter apenas deixado um rascunho no computador, mas sou tão mal organizado que perco o fio à meada. Terá sido num blog, terá sido no Google Drive, no Simplenote? Não sei. Apenas sei que ando de uma app para a outra e nunca encontro nada num lugar só. Faço um intervalo. Vou à reciclagem do Simplenote por intuição e encontro lá o texto. Leio o primeiro parágrafo, o segundo, e depressa chego à conclusão que está bem no lixo. O que eu deveria fazer era arranjar forma de pôr tudo no mesmo sítio e dar-lhes uma casa que não seja esta dos ficheiros perdidos. É um pouco como os sons. Só agora, passados dez anos, é que comecei a dar-lhes espaço e um arranjo de modo a que eles possam contar uma história por muito curta que ela possa ser. Claro que há uma séria probabilidade de deixar tudo a meio do caminho, como é meu mau hábito, mas há sempre alguma coisa que fica. Fica a tentativa e o rascunho. Fica a memória e a ideia. É este problema meu de ser um factótum a espalhar energias por múltiplos lugares e deixar muitos deles desabitados. Às vezes invejo aquelas pessoas que só gostam de fazer uma coisa e se dedicam a ela com todo o tempo que têm. Eu sou mais aquele puto que decide arrumar a papeleira e chega a meio e torna a deitar tudo novamente lá para dentro. Para outro dia. Para outra vontade.
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