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23.6.20

Segundo dia

A terça-feira é um dia maior do que o fim-de-semana porque estamos os dois sozinhos em casa e o Piruças está na escola. Acontecimento raro. Assim sendo, neste segundo dia de escola não tive de descer a rua, nem de usar máscara, nem de fazer nada mais. Fui lá fora de manhã apanhar um pouco de sol antes de começar a trabalhar e depois do almoço para meter uma carta no correio. Estava calor e vontade de regressar ao computador era muito pouca. Vontade de comer gelados. Vontade de estar perto da água. Vontade de não ter de trabalhar. Tudo voltou à normalidade mal o Piruças chegou a casa um pouco antes das quatro. Uns gritos aqui, outros ali, um banho para acalmar. Ainda apareceu a pular atrás de mim numa das minhas reuniões (é difícil encontrar um refúgio nesta casa tão pequena) e agora está deitado na cama a jogar no iPad.

O instinto depois de mais um dia de trabalho é sair de casa e para mais uma corrida, mais uma viagem parque fora em curvas geometricamente calculadas. Trinta a quarenta minutos de pernas em movimento e um suor lento. Chego a casa, Piruças agora sentado a ver televisão. Aviões animados, com pernas e boca. E hoje ele já está mais desperto nos habituais saltos e uivos para ninguém. Pergunto-lhe duas ou três vezes como é que foi a escola e ele não diz nada. Eis o regresso do artista. Em dois dias já está igual a si próprio. Desligado das conversas, em entretenimento de ecrã absoluto. Espero que acabe o episódio para o arrastar para cima, para mais de uma hora a ver se se acaba a bateria. Leio o livro que ele escolhe e pelo meio faço-lhe perguntas sobre a escola. Fico a saber que ele jogou dodge ball duas vezes e que ele gosta de estar sentado à secretária. Pergunto-lhe se as secretárias estão juntas tal como as da imagem do livro e ele diz que não. Estão pelo menos um metro afastadas, diz ele. Cada um tem os seus lápis de cor e há um sítio qualquer onde ele vai deixar os trabalhos, muito provavelmente na secretária da professora. Acrescentou ainda que aqueles que acabam os trabalhos mais rápido podem continuar a fazer outras coisas, tipo desenhar e colorir. No fundo ele queria apenas dizer-me que é sempre muito rápido (quando quer, penso eu) a fazer os trabalhos. Desenhou um foguetão.

Às 8:30 sou eu que desligo. Deixo de lhe dar treta e começo a ler as notícias. Fico ali até ele entrar em câmara-lenta e adormecer. É uma boa meia-hora de luta contra o sono. Vira daqui, vira dali. Bufa daqui, bufa dali. Hoje está calor e só se está bem a dormir de t-shirt e cuecas.

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