Páginas

22.6.20

O primeiro dia de escola

A primeira coisa que disse foi que não queria ir para a escola. Sem birra, sem teimosia, sem nada. “Não quero ir para a escola”. Só isso. E compreende-se. Já passou muito tempo desde que a escola fechou e um regresso é sempre um regresso que custa. É normal que se sinta aquele nervoso miúdo, mas nota-se no tom que é o mesmo do pós-fim-de-semana e do pós-férias. É um tom parecido com o nosso quando dizemos que não queremos trabalhar depois de mais um fim-de-semana em que não tivemos tempo para nada. Dizemos essas coisas e lá entramos na onda. Ele depressa mudou para outra coisa. Vestir calções e T-shirt e eu a dizer-lhes que era como entrar na máquina do tempo: da última vez estava frio, a roupa era quente, e esta semana vai chegar aos 30 graus. A observação teve a subtileza de nos levar para uma conversa sobre o filme Regresso ao Futuro que vimos ontem. Ele não viu tudo porque ficou com medo dos terroristas maus que apareceram no filme de metralhadora e bazuca. Ele não gosta disso. Está sempre a dizer disparates do género, mas não alcança a ficção dos filmes. Nós não tínhamos medo dessas coisas quando éramos pequenos e até gostávamos de ver tiros. Talvez hoje seja diferente. E é. Não tem muito cabimento um grupo de terroristas num filme sobre ciência nos filmes de hoje.

Descemos a rua em vinte minutos. Tudo muito normal - gente nas rua, homens a cortar relva junto ao prédio grande, o trânsito habitual junto à estação de Kilburn - mas parecia haver menos ruído do que é costume porque conseguíamos conversar melhor sem ter de repetir a mesma coisa duas ou três vezes. Isto notou-se mais a meio do caminho, junto do teatro Kiln. Mas tudo parece normal. Há pessoas com máscaras, mas também há muitas que não a usam, algumas com uma alguma idade. Há gente que leva a vida da mesma forma e um pedinte desejou-nos um bom-dia. Dei-lhe uns trocos na volta. Havia um pouco mais de movimento junto à escola porque ali é uma zona de supermercados e vendedores de fruta. Reparámos que o portão das traseiras também estava aberto. Penso que é a entrada para os miúdos mais pequenos e para os do sexto ano que já começaram a frequentar a escola no dia 1 de junho. A nossa entrada é a principal. Havia uma espécie de fila com a típica distância, mas passado nem um minuto avançamos para a parte da frente porque cada grupo tem o seu horário preciso. Eram 9 e 5. Um de cada vez a entrar. Trocámos um curto diálogo sobre as distâncias, nada de correrias, cuidados a ter, e o Piruças lá esfregou as mãos com gel antes de entrar. É tudo um pouco estranho, mas o rapaz estava firme e confiante na postura.

Primeiro dia de escola de uma nova era. Dia de sol, paisagem de verão, imensa gente na rua. A descida é feita de constantes desvios. Avenida de trânsito e de lojas. Gente que anda de um lado para o outro sem se perceber muito bem o que fazem. Abafo a poluição com a máscara. Tenho novamente o ritmo da rotina. Sou anónimo, cada vez mais anónimo. Chego cinco minutos antes do tempo e espero por ele. Saem em fila à hora certa. Ele é o segundo. Muito mais alto do que da última vez que o vi dentro daqueles portões. E desconfio que está ainda mais alto do que alguns dos colegas que já fizeram sete anos há muito. Os putos estão mais gordos. Ele não. Come para crescer. O mais importante: diz que gostou muito e que fez muitas coisas divertidas. Fez desenhos. Jogou dodge ball. Disse que dos 24 da sala só vieram 12. Nem muitos, nem poucos. Miudagem suficiente para animar uma sala. Mas estão separados. Cada um tem a sua secretária (um grande passo na maturidade de escola) e os seus materiais. Almoço e recreio só acontece em grupo restrito. E não se misturam com mais ninguém. Viemos rua acima a conversar sobre estas coisas. Os dois de óculos de sol e com máscara. Porque não? Afinal de contas há gente e poluição a mais nas ruas.

Sem comentários:

Enviar um comentário