Vistas cansadas, corpo desalinhado, a recuperar de mais um dia, uma semana, quase um mês. As duas manhãs mais ou menos, seguiu-se uma manhã de conflito, entre o não querer fazer nada e as ideias confusas. Já se esgota o tempo de estar em casa desta forma. Há que planear novos tempos e outras rotinas. Estudam-se bicicletas e trotinetes. Investimentos para a estrada dos novos tempos. Os primeiros avanços já aconteceram há alguns anos, mas só agora é que é a sério. Digo isto com o olho esquerdo a piscar-me ideias por dentro. Tento processar aquelas horas da manhã a tentar perceber como dar a volta a um puto de quase sete anos que não quer fazer os trabalhos de casa. Não estava lá a boa disposição dos outros dias. Notei-lhe o cansaço e a falta de qualquer coisa nova. Tudo aquilo que nós todos sentimos quando temos trabalho que não queremos fazer todos os dias. Aparentemente, o que funciona é uma espécie de curva ascendente. Primeiro há uma tensão: eu sei que ele não vai fazer nada, ele sabe que a minha paciência verga. Começam as palavras a ferver, o debate entre nós já se estende ao limiar do resto do dia, proibições, televisão desligada. Depois, acaba-se o assunto. Não há argumento possível e só resta o silêncio e um para cada canto. 'Não quero saber', digo-lhe mais do que uma vez quando se atingem os limites do momento. Para quê perder energia quando ainda tenho tanto email por ler? Intervalo para um chá e uma bolacha de água e sal com creme de queijo um uma gota de doce de morango por cima. Continuo a trabalhar, à espera que o remédio faça e efeito. É o meu presente (separação absoluta entre a zanga e o ter de comer qualquer coisa) já uma última arma de arremesso invisível. Eu a pensar: ele vai comer, vai sentir-se mais confortável, vai gostar do gesto e vai repensar a condição. Não demorou muito. Passados alguns minutos veio espreitar o resto da folha por escrever e a resmungar que não queria ficar o dia todo sem ver bonecos. Certo. Nada de celebrações. 'Está aí, só tens de copiar', e ele lá ajeitou um outro esquema fora da mesa. Sentou-se no sofá, uma folha pousada no banco de madeira, outra pousada na cadeira. O chá milagroso fez efeito. Ou terá sido a bolacha?
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