Páginas

25.6.20

O Paulo Barata morreu

Vejo no Facebook que o Paulo Barata morreu. Estive com ele por breves minutos no verão passado quando o encontrei no Largo da Porta Nova a comer um gelado. Ele estava cansado. Encostado ao carrinho dos gelados, a aproveitar a sombra e o fresco. Tinha tubos a sair-lhe do nariz e eu percebi que ele não estava bem. Às vezes é um pouco difícil quando passa tanto tempo sem vermos as pessoas. Elas ficam mais velhas, mais desgastas, e nós não assistimos ao envelhecimento gradual com o tempo certo. São encontros em que nos reconhecemos e temos muita dificuldade em reencontrar os pontos certos da conversa. Eu disse-lhe que ia tocar no pic-nic freak e ele disse que ia aparecer. Duvidei e ele não apareceu. O Paulo Barata era daquelas pessoas que eu ia encontrando nos sítios certos e ficava sempre horas a conversar com ele. Sentido de humor especioso, inteligência sempre aprumada. Guardo a memória de um outro reencontro no Círculo Católico, penso que no Prata da Casa de há uns anos, em que ficámos muito tempo por ali na conversa como se a multidão que estava à nossa volta não existisse. E agora começo a recuar no tempo, a lembrar-me daquela ideia que tive de musicar a Temporada do Inferno de Rimbaud com textos lidos por ele. Lembro-me de uma brainstorm com ele para escrever uns textos mais sofisticados para a Toupeira do JB e de nos termos rido imenso disso no antes e no depois da publicação. Lembro-me ainda de sessões de poesia no Café da Ponte em que eu me escachava a rir com as escolhas dele para uma audiência pacata de sexta-feira à noite. Ele lia poesia dura do Henri Michaux e nós improvisávamos qualquer coisa num trio de instrumentos. Parecia Mão Morta. O Paulo Barata é mais culto do que nós todos juntos e dava à poesia uma dimensão pura, sem as habituais alforrecas inchadas daquelas sessões. Ele era um outsider literato e nós queríamos ser todos como ele.

Sem comentários:

Enviar um comentário