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30.6.20

"As minhas ocupações"

Noites de poesia no Café da Ponte. Set up simplificado para o improviso quase rock e o Paulo a folhear a Antologia do Henri Michaux à procura de textos que ele certamente sabia de cor. A voz rouca, o brilho nos olhos, aquele mischievous look... a mezzanine era só nossa e os incautos ficavam só pelo café sem açúcar. Guardo só uma vaga ideia daqueles momentos porque a vida não é como os filmes nos quais podemos rever os diálogos, as cores, a cara dos personagens, os sons e as músicas. Planeámos música para textos do Rimbaud e até escrevemos alguns textos juntos no anonimato satírico dos jornais. Reencontrámo-nos de vez em quando nos últimos anos, algures entre o Círculo Católico e a Rua da Palha. Um último abraço há cerca de um ano num reencontro rápido encostado ao carrinho dos gelados no Largo da Porta Nova. O Paulo batia-nos com as palavras e com humor, sempre com elegância, sabedoria e estilo. E só agora é que eu percebo a profundeza deste texto que me foi lido por ele mais do que uma vez....

As minhas ocupações

É raro encontrar alguém sem que eu lhe bata. Há quem prefira o monólogo interior. Eu não. Gosto mais de bater.
Há pessoas que se sentam à minha frente num restaurante e não dizem nada, deixam-se ficar durante algum tempo porque decidiram comer.
Cá está um.
Eu arrepanho-o, truz.
Eu rearrepanho-o, truz.
Penduro-o no bengaleiro.
Desprego-o.
Rependuro-o.
Redesprego-o.
Ponho-o em cima da mesa, comprimo-o e sufoco-o.
Sujo-o, inundo-o.
Ele reanima-se.
Enxaguo-o, estico-o (começo-me a enervar, tenho de acabar), amasso-o, aperto-o, comprimo-o e introduzo-o no meu copo, e entorno ostensivamente o conteúdo para o chão, e digo ao empregado de mesa: «Dê-me então um copo mais limpo.»
Mas sinto-me mal, pago a conta de imediato e vou-me embora.


Henri Michaux, Antologia Lisboa, Relógio d’Água, 1999

... e preciso de arranjar uma cópia do livro o quanto antes, a ver se consigo processar isto tudo de uma vez.

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