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22.5.20

As noites não chegam para os dias

Estamos já a não sei quantas semanas nisto e a imaginação que temos começa a ser pouca para sustentar os artifícios domésticos. Não temos um rapaz de ficar nas sombras a perder-se em melancolia. Ele é rebelde e desobediente. Fazemos um esforço tremendo para tentar equilibrar momentos, horas para brincar, horas de entretenimento, horas para fazer trabalhos de casa, coisas um pouco mais sérias. Mas o convívio 24h não é muito propício a fronteiras e depressa a condição resvala para o caos. Tudo está bem até um episódio repentino, palavras eruptivas impossíveis de controlar. E depressa se perde o controlo de tudo. Os aparelhos ficam fechados com palavras-passe, mas não temos fechadura de cozinha para o impedir de assaltar os armários e o frigorífico sem recurso à força. "Fome" compulsiva. Aborrecimento. As perguntas para as quais não temos resposta. Os sermões que não passam de palavras todas juntas e de um tom mais ríspido. Mas o tom nada resolve sem a compreensão. A linguagem é simples, a lógica é a da batata, mas há sempre qualquer coisa que falha.

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