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24.5.20

Gladstone Park

Saimos de casa para dar um passeio. Não fomos ao Queen's Park porque está sempre cheio de gente a socializar-se de forma chique ou em estilo demasiado cool. Também não fomos a Hampstead Heath porque fica um pouco longe e temos sempre de atravessar a pequena vila para chegar à parte de floresta mais isolada. Fomos antes, pela primeira vez os três, ao Gladstone Park que fica no outro ponto do nosso triângulo. Não sei ao certo a distância, apenas sei que há uma série de atalhos que nos levam lá sem muitas curvas. São ruas entre moradia, sem lojas, sem nada. Pelo caminho cruzamo-nos com pessoas. Algumas passam por nós de uma forma normal, sem se chegarem muito, mas também sem aquela postura do medo, tipo pararem para nós passarmos ou atravessar a rua sem nenhuma razão aparente. Nós não fazemos nada disso. Tentamos apenas manter a distância para a eventualidade de um espirro imprevisto. Mesmo assim, é difícil manter um comportamento normal nas ruas. Por exemplo, quando saio para correr tenho uma tendência para me afastar mais de toda a gente atravessando a rua mais vezes e correndo, por vezes, na berma da estrada. Reparo também que esse é um comportamento das pessoas que correm como eu. Tal pode ter a ver com a velocidade, mas também pode ter a ver com o facto de muitas dessas pessoas só saírem de casa para correr e acharem que a velocidade seja um escudo protector, um corpo em movimento sempre a correr para longe do vírus. Mas nem era sobre isto que eu queria escrever. Eu queria escrever sobre estas pequenas coisas que nos fazem falta. Numa altura que anda toda a gente em erupções de pseudo-liberdade para poderem ir ao pub ou ao restaurante, para poderem ir à praia, para poderem fazer uma viagem ou irem de férias naquele estilo pacóvio do costume, nós ficamos felizes com uma simples caminhada até um parque pouco conhecido para ver árvores, flores, labirintos por entre a vegetação. Vemos pessoas ao longe e sabemos que isso até nem é muito estranho para nós. Claro que é triste ver sítios fechados e não podermos entrar num café num improviso de almoço, mas aguenta-se. Há uma procura de outros valores e um encontro renovado com a simplicidade do quotidiano. Ontem, por exemplo, fomos dar uma volta de trotinete até West Hampstead e encontramos uma padaria aberta. Nada de fila como nos supermercados, uma escolha rápida e um pão de centeio dentro da mochila. Em dias normais não teríamos este momento, nem teríamos o prazer tão intenso de uma fatia de pão de centeio (ainda) quente com manteiga.

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