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29.3.20

É difícil escrever sobre um presente incerto, escrevo sobre o dia de ontem

A maluqueira da quarentena passa muito por este exercício de clarinete a acompanhar o Free Jazz do Ornette Coleman. Não importa acertar nas notas, importa só entrar na onda do improviso confuso, acertar no bufar da bocadura e pensar que alguma coisa está a ser apreendida enquanto o vinil roda e roda e roda e roda e há uma nota ou outra que começa a sair para um cosmos distante. Os vizinhos não podem gostar disto e isso só pode ser um bom sinal. Mexo os dedos, procuro os sons mais graves que não encontro de forma nenhuma, e espreito por entre as cortinas a ver o que se passa com as luzes nas janelas e varandas dos prédios em volta. Há poucos segredos neste mundo de hoje, tirando apenas as meias-verdades que vão anunciando nas noticias. Casas cada vez mais fechadas, o medo dos números, a incerteza do mundo inteiro que faz do tema dos últimos quatro anos uma conversa de meninos no recreio da escola. É difícil acreditar num mundo que tem andado este tempo todo a adiar a adiar adiar todas estas possibilidades e a procrastinar a vida de todas as pessoas. Agora é tarde. Agora é um terramoto de 1755 ou coisa parecida. Um desastre em câmara lenta que nos mostra um gráfico de todos os dias, mapas resguardados das previsões, ou não. O único escape disto tudo é um intervalo diário entre as plantas dos jardins, como se isto fosse tudo um sonho que demora e demora e demora a passar. Estamos apenas no início. Escutamos a música do Ornette Coleman e temos o nosso intervalo entre os devaneios mais puros, os sons mais difíceis de fazer, as nossas ideias suspensas num jardim efémero. Dias de sol e toques de bola. Televisões ligadas para um reflexo na janela e um silêncio fora do normal. As sirenes das ambulâncias ecoam muito mais, o vento nas árvores dá-nos a sensação de ser ainda/já outono e tudo poder ser antecipado/ultrapassado como se não existisse primavera (e verão?) nos ano de dois mil e vinte. Tenho de escrever a data por extenso para conseguir gravar este presente para sempre. Ninguém mais vai esquecer isto. Estamos a falar de um mundo que se acaba e outro que tem de nascer de uma maneira diferente. Nada mais pode voltar a ser como dantes. Se for, estaremos a cometer um erro ainda maior. A música do Ornette Coleman é um excesso, é um caos, é um pandemónio. É a música que nos faz mais falta nestes dias. Música do outro mundo (não deste) e palavras que estão sempre a ecoar nas praias que não podemos ver este ano. Escrevo entre a música e o som de desenhos-animados de fundo. É este o nosso som de todos os dias, a única possibilidade de estarmos todos juntos nisto,, mesmo distantes de tudo e de todos. Não me venham com estas ideias de trocas de ficheiros, bandas-sonoras de clausura, tempo para passar dentro de casa. O que nós precisamos mais é de fazer barulho e de encontrar nele espaços de silêncio que nos façam ponderar tudo novamente e recomeçar. Costas direitas. Cabeça levantada. Sopro no clarinete entre guinchos e notas mais sóbrias. Desencontros entre nós e tudo isto, desencontro entre os silêncios e os ruídos.

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