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30.3.20

Não tenho tempo para ler livros, nem tempo para ler jornais. O meu tempo é queimado em horas de trabalho remoto.

O nosso vizinho Alan perdeu o último comboio para a Ilha de Wight e ficou só na casa dele para a quarentena incerta. É ele que vai limpando os puxadores das portas e as tampas dos caixotes de lixo. É ele que corta a relva todas as semanas para que eu e o Piruças possamos dar uns chutos na bola nos nossos habituais intervalos à hora do almoço e ao final do dia. Digamos que é um tipo porreiro. Tão porreiro que me dá para ler o jornal que ele assina. Todos os dias mete-o na caixa de correio, mas eu não o leio. Por três razões. Primeiro porque é o The Times e eu não sou leitor do The Times. Segundo porque não tenho tempo para ler o jornal e todas as notícias que leio encontro-as primeiro na internet e não preciso de mais nada. Terceiro porque persiste aquela ideia de não andarmos a partilhar jornais, apesar de eu ter bem a certeza que ele tem todos os cuidados com os vírus e essas coisas. Mas não consigo dizer~lhe que não o leio porque me custa dizer-lho. Não quero que ele pense que eu sou um cromo assustado com peçonhas (e não sou) e simplesmente pego no jornal, olho para a primeira página e deixo-o no balde de reciclagem. Estamos todos cansados de notícias e o papel não é necessário.

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