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9.1.19

Filosofias de autocarro

Depois de tantos anos a viver fora do país onde nascemos, adquire-se uma espécie de estatuto de fantasma em que não pertencemos a lado nenhum. Vivemos noutro país, que por muito que seja um país do mundo, tem a sua cultura própria - não é muito diferente da nossa, mas há coisas que nunca são fáceis. E estamos longe da nossa pátria, que de acordo com Pessoa é a nossa língua (absolutamente de acordo, no plural), a nossa cultura e todo um contexto de pequeno mundo no qual crescemos. Há quem tenha muito orgulho nisto. Eu não. Creio que se confunde muitas vezes o orgulho com comodismo e com um revivalismo pelas coisas que conhecemos bem e às quais nos habituámos. Basta pensar nos clichés da "melhor comida do mundo" ou da "super bock a melhor cerveja que há". Minha gente, continua a haver muito mundo para lá do Cabo Bojador e a Terra não é quadrada. Se bem que para muita gente lá terá de ser. Mas eu não tenho problemas nenhuns com isso. Nem tenho problemas em andar à deriva entre dois países (ainda por cima, um com o Brexit, outro que não me deixa tirar o passaporte por causa dos sistemas informáticos). O meu problema, parece-me, é o não estar suficientemente longe de um país que se diz agora um dos melhores do mundo para se viver. Talvez seja, para os estrangeiros e para os turistas. Para os portugueses (quer vivam nele ou não) continua a ser uma aventura.

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