Os deuses devem estar mesmo atentos porque logo ao segundo dia do ano decidiram proteger-me e cancelar a minha marcação no Consulado. Devem ter pensado que uma visita aos infernos logo ao terceiro dia seria um mau presságio para o resto de 2019. Isto é uma mensagem dos deuses em geral e do carunchoso território português em particular: não viajes, não venhas embora, não voltes, o Brexit não vai acontecer, é uma miragem.
Eu a esta hora já estaria à porta do edifício, numa fila interminável, com um nervoso piedoso de feijão miúdo. É que eu nunca percebi muito bem como é que se pode estar em Portugal tão depressa ao simplesmente atravessar uma porta. À primeira palavra do securita estamos logo numa freguesia do Portugal profundo, tipo Brufe. E lá dentro, ui lá dentro, é um encontro imediato com o sistema público-administrativo português, coisa pior do que a repartição das finanças de Barcelos em hora de ponta de dia de feira. Quando viajamos de avião, haja ou não turbulência, as coisas são bem mais suaves: a viagem demora sempre duas horas, há gente estrangeira a viajar connosco, ou seja, não estamos constantemente a ouvir aquelas conversas típicas de sala de espera do centro de enfermagem em relação a tudo (não só a doenças, portanto), e não se pressente qualquer agressividade quando nos pedem a identificação (normalmente os tipos do SEF nem falam).
A questão agora é que, pior do que não poder viajar, é não não poder sequer entrar no Consulado. Ou melhor, dito sem floreados, estou impedido de entrar em território português. O que no fundo é um exílio da ditadura da burocracia e da incompetência. É o país em que nascemos (neste caso não posso dizer vivemos) e no qual não podemos entrar. A minha marcação de três meses (vamos lá, três meses, já existe ali qualquer coisa, um feijãozito miúdo) foi cancelada por motivos incompreensíveis: falha sistémica do sistema informático e, muita atenção, alheios. É tão bom um país que assume a sua identidade e nunca a responsabilidade, ah que bom que é ser português. De modo que, com todo o respeito pelas ordens institucionais, pelos séculos de história, pela pátria (ai a pátria!), pelos Descobrimentos e o colonialismo e o esclavagismo e o raio que o parta, esta é a última vez que lêem a palavra Consulado escrita por mim. A partir de agora escrevo (e digo) Cancelado.
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