15.1.19
Água mole em pedra dura, molha-a
Se há coisa que a vida me tem ensinado nesta transição dos 30 para os 40 é a nunca desistir, ser chato, tentar encontrar sempre uma brecha para andar para a frente. E, mais importante, sem recorrer a instintos primários de raiva, ameaça, irritabilidade, medo, ansiedade e por aí fora. Isto a propósito disto de andar a lutar contra a máquina burocrática para conseguir uma marcação para renovação de passaporte. Se não tens armas, tens de (primeiro) tentar construir o cenário do outro lado e (segundo) usar esse cenário para encontrar uma estratégia. E essa estratégia passa sempre pela "água mole em pedra dura" e por levar tudo à beira do precipício sem perder a cabeça. Do outro lado está um tipo enfadado, ciente da ferrugem da máquina, a tentar sobreviver todos os dias a um trabalho que detesta. As armas dele são as instruções do superior hierárquico, uma linguagem temperada com autoridade pública, e uma certa resiliência, porque ele só tem um de dois objectivos: fazer com a pessoa desista e aceite as coisas más como são, ou fazer com que ela perca a cabeça e diga coisas que não deve. É difícil jogar este jogo, mas é assim que funciona. Quando dizem alguma coisa, temos de responder outra, insistir, usar uma linguagem racional e lógica e, claro, mostrar indignação bem temperada, porque só assim é que conseguimos esclarecer o que é justo ou injusto. É uma espécie de dialéctica socrática, adaptada aos tempos modernos do Facebook. E não adianta nada dizermos que não tem jeito nenhum um Consulado usar o Facebook como único meio de comunicação com as pessoas. É preciso usar isso ao nosso favor, entrar na onda e chatear, chatear, chatear. Assim sendo, foi na minha última cartada, que eu consegui o que queria. Consegui sublinhar a injustiça da situação? Sim. Consegui ser muito chato? Sim. Consegui passar a mensagem de que não estou aqui para dizer amen função pública? Também. Mas continuo sem perceber exactamente o que fez com que o funcionário me ouvisse e fizesse a marcação antecipada para a semana que vem. Pode ter sido o facto de não ter ido ao tapete, de ter sido sempre educado, de ter dito sempre que a razão estava do meu lado, de ter usado uma linguagem informal misturada com subtis conceitos jurídicos. Sim teve de ser. É daquelas coisas que saem na hora. Mas quando me dizem, mais uma vez, que não me poderiam dar uma marcação urgente porque tal não se enquadra nos parâmetros das urgências e me mandam pedir um título de viagem única que é no seu valor intrínseco um documento verdadeiramente urgente, onde é que ficamos? Numa contradição obviamente. O que me levou a dizer que tal era um autêntico acto discricionário da administração pública. Eu no lugar do tipo que estava do outro lado (provavelmente um licenciado em direito ou algo do género) sentir-me-ia muito mal se me deparasse com alguém a apontar falhas no sistema, na lógica e no raciocínio. E ainda por cima a mencionar actos discricionários de direito administrativo. Assim sendo, o senhor funcionário teve a amabilidade de, num acto discricionário, ignorar o desastroso sistema de marcações e fazer aquilo que já deveria ter feito há muito tempo. Cinco minutos depois recebi uma marcação para o dia 22 de janeiro. Uma não, duas. Um dois em um em que todos ganham. Sem ter de ir para lá três vezes (contando com um imprevisível acto de viagem único).
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