11.1.17
'Fica só mais um bocadinho, daddy'
Ele sabe que o Piurso não tem rotina e não tem de ir a correr para comboio nenhum. Ele sabe que já não há tanta pressa para sair de casa antes das oito para não chegar atrasado. Ele sabe isso tudo e não adianta nada tentar convencê-lo do contrário. Hoje, assim que chegou à porta, disse que não gostava da 'guardaria' e que queria ficar em casa com o Piurso. Como já ando nisto há algum tempo sei que não vale muito a pena obrigar o rapaz. E, como também não tenho mesmo nenhum patrão à espera, percebo que a única solução mesmo é ficar lá um bocadinho até ele começar a sentir-se mais à vontade. É que ele fica mesmo macambúzio, quase irreconhecível, sem querer falar com ninguém, sozinho num canto prestes a deixar lágrimas a correr. Não esperava isto nesta altura. Mas acredito que seja esta aura nossa que eles pressentem. Sabem que estamos em casa a lutar com o silêncio e a insolência do mundo, à procura de uma espécie de milagre de papel. Por isso, nunca é muito estranho achar que, no fundo, o não estar só deles é mais o nosso não estar só.
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