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3.3.16

No comboio errado

A rotina é tão sacana que eu, mesmo sabendo que a merda do comboio que está a chegar não vai para Clapham Junction, entro nele de forma automática, sem pensar, sem olhar, sem nada. Ainda por cima num dia em que tenho mais uma daquelas reuniões chatas como a putaça logo pela manhã. Não há nada que eu possa fazer. Venho para trás e espero pelo comboio seguinte. Depois de uns minutos em que este stress do dia-a-dia entra em ebulição, sento-me num banco ao sol e penso: que sa foda. Afinal de contas ando aqui a servir de espantalho, a dar em tarefas aberrantes todos os dias sem ter nada em troca, nada de aumentos, nada de mudança de posto, nenhuma alteração de circunstâncias que traga um novo ar ou, pelo menos, uma eficaz botija de oxigénio. Deixei de aturar incompetente para aturar maníacos em stress constante. Entram em conflitos. E eu levo com isso por atacado e com uma conta mensal de mais de £1200 para pagar à creche, o que é praticamente um salário. Qual é a lógica disto?
O comboio chega. Entro. Dez minutos de atraso não é muito. Silêncio. O comboio não anda. Aviso: este comboio vai directo para Clapham Junction e não vai parar em mais nenhuma estação. O que é mais ou menos o mesmo daquela carta do monopólio: "vá directamente para a prisão sem passar na casa de partida e sem receber dois contos".

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