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4.11.21

Cabeça de Jano

Divido o meu dia em duas partes. A primeira, uma descida até Derry Street para o meu exercício semanal de bicicleta. O escritório está vazio. Nem uma pessoa sequer na minha equipa. Parece que o dia grande é a quarta-feira e a quinta-feira o oposto. O porteiro imbecil continua a não saber o meu nome. Não sou assim uma cara tão difícil de esquecer, tenho óculos muito graduados, barba e traços distintos, mas ele continua a olhar para mim como se eu fosse um estranho. Às vezes apetece-me mandar-lhe para o caralho. É impossível ele não me conhecer. Eu conheço-o há pelo menos cinco anos. É um imbecil.
Trabalhei certinho durante cerca de quatro horas. Agrada-me o silêncio e o anonimato de dias assim vazios, sem interrupções, sem ruídos, sem risadas, sem conversas ridículas e rádios sintonizados nos discos pedidos parolos. Levanto-me apenas para preparar um chá ou para ir à casa de banho. É um lugar que apenas faz sentido quando está cheio de gente, mas esses tempos já passaram. Agora é só um lugar cinzento, sem ninguém. Quatro horas por dia chegam. Monto a bicicleta para almoçar em casa. São só cerca de vinte minutos a pedalar para cada lado.
A seguda parte foi passada em casa. O ideal seria ser uma primeira parte a trabalhar e uma segunda parte a não fazer nada, mas a tarde é uma continuidade da primeira num sítio diferente. Não muda muita coisa em termos de trabalho. Há gente a mexer-se mais um pouco, a mandar coisas, a ligar, mas a merda é a mesma. O que muda é a quantidade. A merda multiplica-se com os gifs nas mensagens e habitual tendência para fazer do trabalho uma plataforma de rede social com alertas, mais gifs ainda e uma conversa rarefeita em distrações. Puro ruído. Ou seja, o ruído dos escritórios não é apenas o ruído sonoro. É essencialmente o ruído das tecnologias, das mensagens, dos pings, das bandeirinhas vermelhas, do 'porque é que não respondem às mensagens mesmo quando estão ocupados' (ora, exactamente por causa disso, porque estamos demasiado ocupados para andar a ler mensagens pseudo-importantes num mar de gifs), das piadas que ninguém percebe, de mais um link para uma música que ninguém pediu ou para mais um vídeo de gatinhos. A isto acrescenta-se mais três videochamadas de enfiada sem tempo para respirar e é a partir daqui que ficamos com a cabeça fragmentada, cheia de justaposições de coisas sem interesse nenhum.
Dividir o dia em dois cenários é só por uma questão de equilíbrio. Acredito que muita coisa se cura numa curta viagem de bicicleta. É aquele momento em que transitamos de um espaço para outro que arrumamos as ideias no sítio esquecemos um pouco tudo aquilo que temos para fazer.

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