Páginas

11.10.21

É estranho ter de fechar a cortina num dia de sol no mês de outubro

O sol começa a bater na janela do quarto um pouco mais cedo do que é costume. Assim que subo ao andar de cima, logo depois do almoço, um pouco antes das duas da tarde, vejo-me cego pela claridade e obrigado a fechar um dos cortinados. Ainda assim, sinto demasiada luz nos olhos para estar a olhar atento para um monitor de computador. Não me queixo. Se estivesse no escritório não teria luz natural nenhuma. Estaria de alma e corpo desformados, balão de festa murcho, a tentar compensar o cenário escuro e doentio (há cenários escuros que não são doentios) com um candeeiro de secretária. Eis aquilo que temos no espaço laboral, aclamado lugar de toda a criatividade e convívio: um candeeiro de secretária a fingir de luz natural e fonte enérgica de vitamina D. Só por isto já prefiro este escritório em casa, improvisado com uma mesa de campismo desdobrável e caixas de livros Mr. Men a servirem de suporte de um par de colunas. Não há espaço para mais. O outro monitor está parado porque não tenho espaço para ele aqui, nem uma tomada extra, nem paciência para estar a olhar para tantas coisas ao mesmo tempo. Preciso muito mais da música nos intervalos das reuniões online e de uma janela aberta do que mais um monitor para outra tarefa de ofício. São estas duas coisas que me dão a energia que preciso para aguentar um dia de trabalho na solidão de um quarto de criança. Claro que gostaria de ter um espaço de trabalho mais adequado, cheio de tecnologias e conforto, mas não há disto no horizonte. Tudo o que temos são visões imperfeitas das ideais condições de trabalho. Dão-nos um par de auscultadores foleiros que, além de danificarem os nossos tímpanos, nos deixam ainda mais cansados ao final do dia. Dão-nos um monitor de computador de largas polegadas, mas não nos dão a luz necessária para proteger os nossos olhos. Dão-nos o conforto de uma secretária própria de trabalho, mas deixam sempre o ar condicionado desregulado e as janelas fechadas.

Sem comentários:

Enviar um comentário