13:06
Só falta um dia para o fim da quarentena e ninguém tem, ou teve, sintomas de nada. Um espirro aqui ou ali, uma tosse esporádica por falta de água, um calor de brincadeiras de verão, mas nada de indícios de vírus. Mas ainda falta um dia, e parece que a incubação pode retardar e acontecer no último minuto do último dia. Daí este calendário seguro de uma quinzena de infortúnio social e de ar puro.
13:12
Temos um vizinho do prédio grande que costuma andar pelos arredores a apanhar lixo do chão. Apanha sacas, papéis, tudo que voa com o vento para os cantos dos parques de estacionamento. Hoje veio de contentor até ao fim da linha para apanhar folhas secas com uma vassoura e um apanhador. Não me parece que ele tenha os parafusos todos no sítio, mas se fosse toda a gente como ele viveríamos certamente num mundo melhor. Mais limpo, pelo menos. E também não me parece que ele seja daqueles tipos meio-atordoados, meio-solipsistas, sem ninguém. Vejo-o a conversar com outros vizinhos que também pouco ou nada têm que fazer durante o dia. E lá vem ele novamente com uma pá carregada de folhas secas.
13:20
Ando numa de country-ambient, uma nova tendência das sonoridades americanas que roça um pouco no new age do cowboy solitário. Agora é um disco de uma banda chamada Balmorhea. Pianos celestiais, efeitos reverberados, cordas de guitarra travadas num bom estilo de 80s pré-twin peaks. As ideias parecem boas de estudar: arranjos em mutação constante, batidas de caixa de ritmos encaixada com jeito, silêncios no sítio certo.
16:51
Curtas sessões de guitarra na lentidão típica de quem já não tem muita paciência para a coisa e um mar plácido de música de fundo sem movimento. Perco-me depressa e não saio das texturas ambientais monocórdicas. Há uma hora estava a tocar três notas diferentes, mas depressa me rebaixo ao estigma da falta de ideias como quem tenta navegar ancorado. Regresso para a janela do quarto e nem nesta paisagem de coisa nenhuma consigo imaginar uma banda-sonora em câmera-lenta. Assim sendo, só me resta regressar à árdua tarefa de arrumar os aposentos do passado e esperar ter alguma coisa diária para arrematar o passar retalhado das horas. É acima de tudo uma sensação de isolamento constante. Tudo imensamente longínquo, no tempo e no espaço.
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