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19.8.20

Dia 1/14

Hoje é o primeiro dia da quarentena, dia de viagem, dia de mais um voo para casa. São catorze dias em que não podemos sair para praticamente nada. Talvez só para ir ao supermercado, necessidades básicas. Não faço ideia. Iremos saber quando aterrarmos ou quando acordarmos já na nossa cama com um dia inteiro pela frente. 

Os meus óculos começaram a embaciar depois da curta caminhada entre o check in e a porta de embarque. A mochila às costas é sempre motor de aquecimento e nesta ala do aeroporto, porta de embarque número 10, há uma temperatura mais fria. Estão cerca de 20 graus e lá fora está tudo cinzento. Chove de vez em quando, daquela chuva morrinha. Há pouca gente por aqui. Avião meio-vazio.

O avião chegou 25 minutos antes da hora e em menos de uma hora já estávamos dentro do minicab. Não foi boleia do vento. Foi antes este vazio de gente. O trajecto entre a aterragem e o exterior demorou cerca de 40 minutos. Sem paragens de maior, nem filas demasiado grandes para apresentar o passaporte. Desta vez encontramos uma funcionária simpática que fez questão de me ver a cara sem óculos, mas que não quis saber dos papéis da quarentena para nada. Ninguém quer saber dos papéis da quarentena para nada. Ninguém quer saber da quarentena para nada. Com ou sem eles não fazemos planos de sair para lado nenhum nos próximos quinze dias. Se não fosse o risco de nos baterem à porta ao acaso, até dava umas corridas (aposto que e peta a história de nos baterem à porta de casa) e até dávamos os nossos habituais passeios no parque, mas vamos ficar pelo jardim de casa. Cumprimos o nosso dever por consciência e porque não temos a vida social das pessoas normais. Somos bons cidadãos. Isolados por natureza e com poucas ideias de festa.

Estamos em casa. Estendidos na cama à espera que o Oto adormeça por ele. Comeu uma malga de cereais com leite e agora está deitado com os bonecos de peluche. Uma das plantas que ficou com o Alan deu fruto. Dois pimentos verdes. Agora é tempo de esperar que o sonho chegue. Há um bom feeling de regresso e é o feeling o mais importante. Há ainda um mundo para nós aqui e, sem ser por nada, aquele bem-vindos da funcionária simpática do aeroporto caiu imensamente bem. 

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