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17.5.20

Queens Park aberto

Eu perguntei-lhe se ele queria ir ao Queens Park e ele disse que sim todo entusiasmado. Mais uma descida para as traseiras da casa é somente mais uma saída para as traseiras da casa. Sempre a mesma coisa, os mesmos lugares, o mesmo jogo da bola e de badminton. Chega-se a uma certa altura em que tudo é uma planície de energias e de regras fossilizadas sempre nos mesmos trajectos, os mesmos hábitos, os mesmos comportamentos. Por isso, começa-se a tornar cada vez mais difícil tirar o pijama. É mais empolgante saltar em cima da cama, lutas de wrestling, próprias da idade. Quase três meses depois, um desafio para uma curta caminhada é um misto de incerteza e entusiasmo. E porque não? Passar por gente na rua não é certamente mais contagioso do que tocar na maçaneta da porta de entrada da nossa casa, de nos cruzarmos com os vizinhos, de ouvirmos um espirro do outro lado do muro, de pegar na dúzia de sacas de supermercado que nos são entregues todas as semanas. Pergunto-lhe se ele quer usar máscara e responde veemente que não. Diz ele que nunca vai pôr uma máscara na vida e faz uma cena sempre que vê alguém de máscara na rua, como se tal fosse a coisa mais assustadora do mundo do espectáculo. Pouco importa. Não é obrigatório (nem faz sentido) usar máscaras ao ar livre. Recomenda-se sim o uso de máscaras quando, por exemplo, se anda de transporte público ou quando se vai a um supermercado. No fundo, lugares fechados com gente por perto. Mesmo assim, pouco ou nada se sabe se isso vale mesmo a pena.
Fomos o caminho todo na conversa de jogos em que se tem de adivinhar o nome de animais. Gravei a caminhada para lá, uma espécie de sound walking para memória futura. 30 minutos de conversa e de vento. Estava muita gente no parque. Grupos de pessoas, famílias, gente a falar à distância. Procuramos um sítio com menos gente para jogar o disco voador, não por causa do vírus, mas porque fazemos sempre isso. Não somos de procurar os aglomerados, nem de ter gente amiga para conversar no parque, gostamos de espaço. E é o espaço o factor primordial aqui. Esta sensação de não ter um muro ou as paredes da casa ou os automóveis dos vizinhos. É o podermos estar a uma considerável distância para atirarmos o disco de modo a que este ganhe lanço, levite entre as árvores enormes do Queens Park. Podemos correr mais, podemos atirar com mais força, sem o problema de acertar num automóvel ou atirar o disco para o jardim do vizinho do lado. Podemos chutar uma bola sem que o vizinho reclame com o barulho dos chutos com força e os ecos da bola a bater no muro. Não é bem uma questão de liberdade como muita gente tem aproveitado para mitigar a quarentena. É mais a questão do espaço, do regresso a uma conversa que apenas acontece nestas caminhadas (da mesma forma que certos livros só são lidos em viagens de autocarro) e de poder fazer um intervalo maior neste viver em casa. Sublinhe-se que isto também não é nada de extraordinário. Não é uma razão para festa ou para celebrar. É tão só este habitar mais presente nos espaços.

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