5.5.20
Chegado àquele ponto em que já não vale nada a pena ler as notícias - não há nenhum admirável mundo novo a construir-se, as coisas vão voltar ao mesmo, ou pior
Tenho andado sempre à procura de tempo que não tenho para organizar as ideias. Tempo que não tenho porque a única coisa que importa realmente é arranjar um ponto de concentração, seja ele uma lista de canções, um pequeno texto ou uma conversa. Muitas das tarefas que eu tenho nos meus dias de ofício, apesar de terem muitas dessas características, não servem para a causa porque são chatas e ultrapassam a minha vontade. São raros os momentos em que eu fujo à rotina das tarefas aborrecidas para me dedicar a alguma coisa mais interessante. É um pouco aquela sensação de se estar a ler um livro só pelo passar do tempo ou para chegar ao fim do capítulo. As palavras vão sendo ignoradas e as frases vão sendo aglomerados abstractos. Tal como a música que fica a tocar no fundo - não a estamos a ouvir realmente, mas ela persegue-nos quando tentamos dormir. Procuro mais intervalos. Vinte e cinco minutos de concentração e cinco minutos a pé para esticar as costas. É um peso que se evapora quando estamos atentos a estes ciclos de concentração. Não vale a pena complicar. Depois imagina-se a quebra de rotina com qualquer coisa nova. Ontem, por exemplo, lembrei-me de ler poemas surrealistas do Alexandre O'Neill ao rapaz a ver se ele achava interessante. Estava na ideia que ele acharia piada aos trocadilhos e aos jogos de palavras em português. Enganei-me. Li só para mim, mal, e abri um livro de animais, ciência e porquês, que para ele é muito mais interessante. E, já agora, para mim também.
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