Outro dia difícil. Daqueles em que percebemos cedo que vai ser uma constante batalha de energias e palavras. Desistimos depressa e desligamos tudo: televisão, iPads, telemóveis. O puto não percebe que só ele é que perde no entretenimento. Nós, lamentavelmente, perdemos energia. É um estado de coisas imprevisível, sempre uma incógnita. Há momentos em que só queremos desaparecer, desligar o ruído, escondermo-nos algures: atrás de uma cortina, debaixo da mesa, do tapete, dentro de algum armário com espaço. Mas tal parece impossível. Nem na casa-de-banho há sossego. É uma perseguição constante, um arremesso de inquietude.
Tudo isto tem de ser visto em perspectiva, claro. É difícil por momentos, mas as energias recuperam-se com brincadeiras e um pouco de sol. Não nos podemos queixar muito. Faz parte. Pior são aqueles que se queixam por tudo e por nada. Porque não podem sair de casa. Porque não podem fazer isto e aquilo. Porque não podem ir ao pub. Porque não podem ir ao ginásio. Porque não podem tirar férias. Fico desiludido com pessoas que conheço, com quem trabalho, que dizem que se tem de começar a sair de casa numa lógica de que quem é susceptível de morrer de COVID vai morrer mais cedo ou mais tarde. É uma lógica atroz. Não deixo de dizer que isso está errado, mas fico a remoer por dentro porque isto mostra que há gente que não tem noção de nada para lá do próprio umbigo. Gente criada na manjedoura da classe média, indecisos no voto por uma alternativa, eternos conversadores balofos de pensamento progressista que é só aparência. Gostam de apregoar o quão cool e artistas são, mas quando chega a hora, metem-se debaixo dos saiotes tradicionalistas, do casar, do ter dois filhos, o carro, a casa e do raio que os parta. E quando não conseguem isto, continuam na mesma, mascarados.
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