29.4.20
Só me apetece ver filmes
Com a chuva vem uma vontade de ficar mais tempo na cama a pensar nas coisas todas que queremos fazer e que nunca fazemos. Desenhos mentais de imensas coisas que vamos guardando para amanhã porque nunca temos tempo para fazer hoje. O que nós podemos fazer hoje é continuar na rotina dos afazeres laborais enquanto estes nos dão um salário e um pouco extra para um futuro que nunca se sabe. É a avalanche da crise que nos diz que temos de dedicar o nosso tempo à causa, a incerteza imensa do amanhã, do próximo mês, do próximo ano. Onde é que isto tudo vai parar? Já não temos a liberdade que tínhamos, não podemos sair de casa, não podemos viajar e ainda não sabemos nada. É assim que os dias começam. Quando está sol parece que é mais fácil porque basta uma luz nova ou uns pinotes lá fora a jogar com as raquetas para ficarmos com um pouco de calor que nos deixa bem dispostos. Com a chuva vem o desespero por um dinossauro, nenhuma vontade de fazer trabalhos de escola, uma conversa interminável e repetitiva, um cantar ao desafio que não tem melodia nenhuma, uma quebra em lágrimas porque não se gosta de perder nem a feijões e depois apetece atirar coisas pelo ar, dar cabo das plantas dos vasos, dar chutos nas coisas, falar alto, resmungar, desopilar, sem que nada se possa fazer por isso. Ainda há quem diga que faça chuva ou faça sol se pode ser sempre alegre. Balelas. É tudo uma sinfonia de emoções e sentimentos que entram em erupção sem razão aparente. E o que podemos fazer? Pensar que um dia isto volta ao normal, que vai haver escola daqui a um mês, que é normal ter-se estes momentos em que tudo à volta parece fechar-se e que conseguimos aguentar esta falta de passeio, de ver gente, de ver coisas, de ter uma vida normal, sem este estado de espera por uma coisa que nunca se sabe onde vai parar. Pode ser que amanhã seja um dia melhor. Pode ser que amanhã haja qualquer coisa nova que nos tire desta pasmaceira sem sentido. Tantas coisas que queríamos fazer, mas mesmo estando tanto tempo em casa, nunca temos tempo para ler os livros adiados, começar uma nova etapa de coisas criativas. Continuamos aqui a aguentar os dias, a trabalhar, a educar, a cuidar das coisas todas da melhor forma possível. Continuamos a pensar em mil e uma coisas que vamos escrever e fazer com o tempo livre, mas quantos a noite cai, ficamos neste estado esbranquiçado em que não nos apetece fazer nada. Toda a nossa energia foi com o dia.
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