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30.4.20

Objectos predilectos II

Na impossibilidade do silêncio, temos música. Um fio de som que entra na cóclea e transmite as vibrações certas para um cérebro desconcertado. Ouvimos isto através das partículas do ar ou nas conchas almofadadas acopladas nas orelhas. Os auscultadores não são só de agora. Há anos que ando com eles pendurados no pescoço, dentro de sacos, auriculares no bolso. Acompanham-me em viagens quando eu quero ter a continuidade das imagens: os prédios, as pessoas, a correria citadina, as sequências dos movimentos do corpo, passos incertos nas ruas. São muitas vezes a máquina do tempo para outras paragens: corpo aqui, cabeça noutro sítio. São, sobretudo, a alternativa ao silêncio quando este não é possível. Só assim se pode sobreviver a horas e horas de escritório entre os comportamentos erráticos dos outros e as constantes invasões sonoras do espaço. Só assim se pode sobreviver durante momentos desconcertantes dentro de casa, quando é preciso ter alguma concentração para cumprir as tarefas diárias do ofício. Sem os auscultadores não há isolamento possível. Mas claro que há também uma periferia única na música quando começamos a reparar nos pormenores e no verdadeiro som das coisas. O único problema é a constante obstrução dos sons em volta e dos pensamentos que precisam do estímulo externo. É uma supressão que pouco ajuda a que sejamos mais corpo em interação, mas tendo em conta as circunstâncias, o que é que podemos inventar mais quando tudo se vai desfazendo aos poucos. Por enquanto estes servem. Cancelamento de ruído desnecessário. Há distância.

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