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14.4.20

Os dias todos iguais, as horas que passam sem nenhuma certeza, os minutos silenciados pelos números

Estamos cansados. Os dias são todos iguais, as notícias são sempre sobre o mesmo. Acordamos de manhã cedo cheios de dúvidas. Não sabemos onde vamos. Estamos em casa dia e noite. As primeiras semanas foram uma temporada de adaptação a uma nova realidade. Mais fácil para uns do que para outros. Eu aceito as coisas quando elas me ultrapassam. Observo. Ao princípio foi uma agitação de rede social a ver quem fazia coisas em casa e mandava para o mundo. Sinal de vivacidade e vontade de não deixar nada parar. Depois foi-se tudo esmorecendo. Em parte porque estas coisas não funcionam com tiros de espingarda para o ar porque o mundo da internet não é propriamente o mundo dos afectos artísticos. É como estar a ver reclamos o tempo todo, cada um com a sua própria vontade de mostrar qualquer coisa e de não parar. E é aqui que reside um dos problemas. O actual estado das coisas obriga-nos, de certa forma, a parar, a observar, a ficar em silêncio e interiorizar esta mudança drástica de paradigma. Não nos faz propriamente ficar sentado a acabar de ler o livro que andavamos a ler há séculos. Sobretudo, obriga-nos a questionar o livro que andamos a ler e se realmente o queremos continuar a ler. Mas, nalguns casos, a pergunta é se queremos continuar a ler seja o que for.
O outro problema tem mais a ver com o estado em que ficamos por dentro. Após quatro semanas de jejum do mundo o corpo começa a dizer-nos outras coisas, todo o sistema nervoso é um ruído incompreensível que nos atira para o chão. Chegamos àquele estado em que não nos apetece fazer nada. Fazer para quê? E porquê? Os dias continuam iguais e as notícias continuam a ocupar o nosso espaço e o nosso tempo. Os dias de sol são, na melhor das possibilidades, uma oportunidade para ir lá fora, ao jardim, esticar as pernas e os braços, absorver um pouco de vitamina D, a ver se garantimos as condições físicas mínimas para este tempo interminável em que tudo que tomavamos por adquirido se vai evaporando aos poucos. Chegados a este ponto, quatro semanas de retiro doméstico forçado, temos apenas como objecto de estudo todas aquelas coisas simples e comuns. Pensamos na refeição com outro apetite, com o que há. Hoje não há ovos e a fruta está a acabar. E depois? Daqui a uns dias temos mais, e até lá vamos inventado outros sabores com os pacotes abertos esquecidos nos armários. Uma simples bolacha com queijo-creme renasce para a mesa. Há gelatina para a sobremesa. Há pão feito na máquina. Descobrimos que, afinal, a rotina de supermercado tem muito mais valor do que ir ao cinema, mas temos saudades de ambos. Saudades de ir ao pub, de ir ao Franco Manca, de ir ao Queens Park, de ir ao 'parque dos frogs', de dar um grande passeio até Hampstead Heath, comprar um gelado daqueles mesmo bons. Agora que tudo está fechado e esquisito começamos a sentir o peso deste tempo. O corpo dormente, a cabeça dormente, o desalinho das horas domésticas em pequenos desencontros das palavras. Sobretudo, pensamos neste tempo em casa e em tudo o resto que vai acontecendo lá fora. Bem bem lá no fundo sabemos que o melhor que existe é este tempo que vamos passando uns com os outros, neste convívio simples de jogar jogos de tabuleiro, de jogar à bola, de nos enconstarmos uns ao outros porque, de facto, não temos mais nada. É um horror ter de pensar que qualquer pessoa pode ficar doente e que tudo pode acabar em pouco tempo. Não é um sentimento justo, nem um pensamento que possa fugir ao medo. Só por isto nunca há muita vontade de fazer muito mais, porque nós agora queremos só o básico, esta permanência de afectos que nos ampara em cada dia que passa. Dias todos iguais, noites todas iguais. Vivemos tempos de filme (bastou-me dar uma corrida estrada fora, ver pessoas nas filas para o supermercado para perceber bem isto) e não há muito que possamos fazer agora. A nossa preocupação mais básica é a sobrevivência (não a sobrevivência de guerra, mas sim aquela lei fundamental do universal que faz com que a mais pequena decisão tenha um propósito de sobrevivência, embora não pareça). É tentar não ser escolhido pelos números e continuar a domesticar todos os pensamentos difíceis que vamos tendo ao longo do dia.

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