17.4.20
Isto é que é uma sexta-feira
A melhor forma de acabar uma semana de trabalho a partir de casa é com uma entrega de supermercado na hora certa. Cinco ou seis caixas de mercadoria há porta. Parece natal. O homem das entregas a uma distância de dois metros e eu a subir as escadas cheio de músculo. O Piruças, todo contente, a esvaziar as caixas para o corredor, a cozinha, a entrada, qualquer sítio. Frigorífico a encher-se novamente, o balcão cheio de fruta, maçãs, bananas, pêras, um melão, um ananás. Desta vez tivémos direito a ovos (vamos ter bolo e panquecas) entre outras coisas que estavam esgotadas da última vez. Caixas vazias, porta fechada, hora de fazer pizza com tomate e mozzarella. Continua a festa e a azia que se lixe. Temos numa entrega de supermercado o sentimento de ser sexta-feira, fim de semana, melhor que ir ao pub. Coisas simples que nos deixam felizes nos dias de hoje. É tudo tão esquisito quando pensamos nisso. O homem das entregas ao longe, a fruta a ser lavada na banca, as mãos esfregadas com alcóol antes de comer a pizza com as mãos. Tudo tão estranho. Tudo tão imerso numa névoa invisível, tal como num filme. Ontem não bati palmas à janela. Não sou do estilo de bater palmas e tudo isto me parece confuso porque não faz sentido. É só mais uma distração para as pessoas, para que elas não se agarrem a sentimentos de raiva perante esta incompetência dos governos em dar as condições necessárias de trabalho aos enfermeiros e médicos, de arranjar forma de se fazerem mais testes (tal como na Alemanha) e desta fuga deprimente à responsabilidade política. O Piruças fez uma observação interessante, das dele: 'as palmas só servem para distrair os médicos que precisam de se concentrar a tratar dos doentes'. Se abrirmos alas às ideias de distração e de concentração, tudo faz muito sentido. Assim sendo, com esta observação, fechamos as cortinas do quarto para as nossas leituras sobre o universo. Será que as pessoas fazem a mínima ideia de quão grande e infinito é o universo e de quantas estrelas existem só na parte que conhecemos dele? São biliões de biliões de biliões, mais estrelas no universo do que grãos de areia em todas as praias do planeta. E nós somos aquele ponto quase invisível numa via láctea já de sim enorme. Que significância tem todo este estado de coisas perante tudo isto? Nenhum. Significado tem só o gozo que dá acabar uma sexta-feira com uma entrega de compras de supermercado, caixas que nunca mais acabam, mais fruta, ovos, legumes, chocolates. Para celebrar, uma pizza caseira.
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