11.11.19
Frio, frio, fio, folha, folha, filho
Descemos a rua em conversas abafadas pelo ruído do trânsito. Um castanho amarelado de folhas de árvore no chão. Uma névoa leve no contraste de luz do sol que nos bate nos olhos. Eu digo coisas só por dizer, tu não queres saber e continuas a pontapear folhas. Só que as folhas secas de hoje já estão molhadas, são um aglomerado de sons empapados pela chuva que caiu durante a noite e agora não há vento que as seque. Está frio. Muito mais frio do que ontem. É segunda-feira e não deveria estar assim tanto frio. Deveria ser proibido sair da cama em segundas-feiras assim. Parece que dói. Os ossos, a pele, a carne mais à superfície treme. Habituámo-nos aos poucos a descer a rua assim. Quando chove, entramos no primeiro autocarro. Quando não chove e há trânsito continuamos a caminhar. As nossas conversas não são conversas quando há tanto barulho à nossa volta. Tu vais falando sobre coisas de um mundo de jogos e de fantasia e a única coisa que eu posso fazer é dizer que sim, ok, estamos a caminho. Quando percebes que eu não ouço, eu explico que os automóveis fazem muito barulho e eu não consigo ouvir tudo, não consigo perceber certos sons que dizem que, em casa, quando há silêncio, são tudo aquilo que eu escuto. Um dia vamos estar em conversas em silêncio, em dias mais lentos, sem rebuliço de cidade. Eu vou estar longe desta máquina de instruções que faz disto tudo que nos rodeia a nossa rotina: lava os dentes, calça os sapatos, pega no saco, come tudo, não te esqueças da tua super-goma, veste o casaco. Eu sei que há dias em que não apetece nada ir para a escola, não apetece nada ir trabalhar, mas quando chega a hora tu vais sempre a correr lá para dentro a acenar, contente (queres ser o primeiro, eu compreendo), e eu sigo o meu caminho estrada fora para o primeiro autocarro que me leve até ao fim do mundo.
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