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10.10.19

Frinchas

Sento-me no sofá a pensar no vazio na dentadura do Piruças. Não no estilo Shane McGowan que lhe dá uma pinta de rufia ou na dislexia que nos obriga muitas vezes a um esforço extra para entender palavras a deslizar na língua à solta e nos perdigotos. Fico antes a pensar no frio que ele deve ter no céu da boca agora que estamos no outono, tempo de vento frio e de folhas secas. Hoje disse-lhe para ele ter mais cuidado com as constipações quando abre a boca. Sugeri-lhe um dente postiço como remedeio. É que eu não quero que o rapaz ande a inchar as adenóides por causa de um dente que caiu na estação errada. Ele ri-se. Sem embraço. Acha piada a estas coisas. Mas eu digo-lhe que ele não se pode rir mais porque as correntes de ar são perigosas. Ele não percebe. Enfia uma palha no buraco deixado pelo dente e bebe leite frio. Correntes de ar, leite frio directamente para a goela, sem passar na casa de partida, e é risco certo de um potencial resfriado. Ele acha que eu exagero e continua a rir-se. Cerra os dentes feito esquilo só de um dente. Acha piada à fanadura. E eu sugiro um implante de ouro. Uma coisa brilhante.

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